27 julho 2005

23 _ se um elefante incomoda muita gente...

Eis-nos chegados à última semana de Julho. Por esta altura, já muitos partiram de férias, enquanto outros aderem à tendência maioritária(?) das férias em Agosto.
É altura das viagens, das promoções, dos incentivos à escolha de destinos paradisíacos...
Uma das coisas que muito me desagrada nestas investidas da promoção de destinos de férias, é aquele sector da imprensa e revistas da especialidade que, ainda não percebi se por generosidade ingénua ou se por pedantismo, apregoa a busca de locais “semi-selvagens” como fuga aos destinos habituais e propõe alguns desses destinos que, até aí, eram bastante tranquilos e agradáveis. Claro que, a partir daí, deixam de o ser. Na minha opinião, isso só serve para destruir os poucos lugares onde ainda se pode gozar de alguma tranquilidade, já que aqueles que gostam realmente de sítios diferentes têm a iniciativa e o saber para os procurarem e para terem a gratificante recompensa da descoberta (muito mais saborosa do que a previsibilidade).
Pessoalmente, tenho por hábito (que tem tanto de egoísta como de pura manobra de sobrevivência) não revelar os locais de férias preferidos, ou pelo menos não andar por aí a apregoá-los aos sete ventos, para aí não ter de encontrar, num ano seguinte, uma horda de barraquinhas de cachorros, de parques de estacionamento, de cheiro a bronzeador de côco, de crianças histéricas, de pais no limiar da irritabilidade, e de todos aqueles estereótipos que a banda desenhada de Frank Margerin, por exemplo, tão bem captou. Por isso fico até contente com os hábitos da maioria.
É que essa maioria, apesar de se estar a espalhar um pouco por todo o lado, tem uma série de destinos migratórios sazonais de pouca diversidade. E se isto é saudável para a preservação dos locais menos concorridos, é extremamente saturante para os destinos preferenciais das massas. E com uma agravante - com a necessidade de dar resposta às multidões que acorrem a esses locais, foi (e está a ser) criada uma série de condições para a recepção dessas massas. O caso do Algarve é, obviamente, um paradigma desta realidade. O grande problema é que esse crescimento desmesurado traz graves situações de insuficiência, quer de um lado quer de outro. Ou seja, se as povoações não se adaptarem à afluência pontual e sazonal de turístas, entram em ruptura quando esse fenómeno ocorre, mas, se pelo contrário, forem equipadas para darem resposta à “invasão”, ficam com insuficiência de utilizadores de todos os equipamentos introduzidos, aquando do abandono das massas, em final de época.
Durante algum tempo, morei numa localidade costeira do sudoeste alentejano, bem conhecida de todos, e pude verificar em primeira mão esta oscilação entre dois extremos, sem que haja realmente um equilibrio, exceptuando uns escassos dias por ano, em início e fim de época. É uma povoação que cresceu bastante - e, pasme-se(!), mal... - quase exclusivamente à custa da construção de edifícios de habitação. E aqui surge outro problema, porventura mais grave. Na realidade, as malhas urbanas desses locais densificam-se e expandem-se, mas a introdução de sistemas de infra-estruturas e de equipamentos complementares não acompanha o aumento da construção de moradias. Até porque, se integrarmos o sector privado no fornecimento de equipamentos e serviços desses locais, temos de chegar à conclusão que muito dificilmente um investimento se paga com uma utilização de algumas semanas por ano, ainda que essa utilização ocorra de forma intensiva. Se pensarmos que a maioria das habitações de que falo se destinam a casas de férias e/ou de fim-de-semana, então o caso fica mais flagrante.
Então lá estava eu, nessa charmosa localidade costeira alentejana, a mover-me numa espécie de cidade-fantasma durante todo o ano, em que raramente encontrava alguém nas ruas depois do recolher das velhotas que saíam da missa das 18h30, em que não havia mais do que dois ou três sítios onde se pudesse ir comer, conviver ou socializar, e quase apenas aos fins-de-semana e durante o dia, e em que o dia-a-dia era menos impulsivo do que seria desejável, pela escassez de oferta a todos os níveis. Para depois, assim que o sol começava a anunciar o calor do sul lusitano, ter “o quintal semeado” de turístas em bandos frenéticos. Nessa altura, era uma situação semelhante, mas por causas opostas - não se podia ter acesso a nada, não havia lugar em lado nenhum, tudo pela diferença entre o volume e o conteúdo. Era quase o mesmo do que não ter nada, com a agravante da desordem e do caos.
Mas o pior, mesmo, desta situação, não é o desconforto gerado de forma idiossincrática, mas antes a questão das infra-estruturas de abastecimento e de saneamento, com a total incapacidade de resposta para a afluência em massa. Os esgotos saturavam, a água não era bastante, o sistema de recolhas de lixo era ineficaz, etc, etc.
Mas a solução deste problema não é nada fácil. Por um lado, não se pode querer fechar as localidades à procura turística, nem se conseguiria, mesmo caindo no erro de assim se decidir. Por outro lado, todos os serviços e condições de funcionamento desses mesmos locais estão constituídos para darem resposta a um rítmo e intensidade de vida e de utilização muito baixos, tendo em conta a escassa população que ali reside. E, se a nível da tal intervenção do sector privado (falo da oferta de serviços e de bens) a situação até poderá ser, já de si, difícil de definir, passando por casos pontuais e por eventuais sazonalidades de funcionamento - segundo a rentabilidade possivel - no que diz respeito às infra-estruturas, a coisa é mais complexa, mas poderia estar mais afinada em certos aspectos. Um deles é o controlo rigoroso da utilização dos espaços de alojamento, tais como, por exemplo, os parques de campismo, que, invariavelmente, no nosso país, estão sobre-lotados e sem infra-estruturas competentes. A articulação, a nível do planeamento urbano, deste e de outros tipos de equipamentos que atraiam turístas tem de estar associada à intervenção municipal no campo das infra-estruturas.
A tal povoação costeira onde eu vivia, por exemplo, tinha cerca de três mil habitantes permanentes, e recebia alguns trinta mil no pico da época de férias. Perante esta situação, parece-me exigível que as infra-estruturas estejam preparadas para o limite superior, funcionando em “sub-rendimento” durante o resto do ano (por oposição a funcionarem de forma insuficiente no período forte). Claro que a situação não era esta... Isto se, de facto, se quer “permitir” (ou criar as condições que permitam) a vinda de tamanha quantidade de pessoas nessas épocas.
Claro que há outros problemas mais complicados, tais como a heterogenidade da malha urbana, a criação de zonas de utilização diversa, como oposição à desaconselhável expansão de zonas dormitório, que é o que acontece. Um pouco como termos uma casa grande, onde recebemos amigos aos fins-de-semana, mas que utilizamos no seu todo, ao invés de termos meia dúzia de divisões que só se utiliza aos fins-de-semana, para alojar esses convidados, e que mantemos fechadas e inutilizadas durante o resto da semana.
Mas isso é um assunto muito mais difícil de resolver. Tão mais difícil e complexo, que nem me atrevo a falar disso aqui, em meia dúzia de linhas.
Bom seria, para já, que as condições básicas de abastecimento e saneamento dos locais mais procurados não fossem insuficientes para a utilização turística pontual, e que não ficassem em ruptura após a debandada geral, como uma carcaça abandonada por um predador, depois de um breve e regozijante festim.
Para que ir de férias saiba bem e para que quem lá fica depois também se sinta bem com isso.
Eu por mim, nas próximas semanas ainda cá estarei com estas crónicas. Depois também hei-de ir de férias. Mas... desculpem lá, não digo para onde...