20 julho 2005

22 _ a história da arquitectura

Ao contrário do que poderia sugerir uma metodologia mais racional das várias actividades da minha vida, não sou daquelas pessoas que tem um livrinho onde se assenta todos os afazeres e tarefas do futuro, mais ou menos próximo, nem tão pouco sou utilizador ou fã incondicional das tão elegantes e pomposas agendas de trabalho. Tenho, isso sim, um esquema mental das minhas ocupações e seus respectivos prazos. De forma que também não tenho uma lista organizada por temas ou sequenciada dos assuntos a tratar neste espaço de crónicas semanais. Ou seja: todas as segundas-feiras (o mais tardar), lá estou eu a lembrar-me “tenho de escrever a crónica para enviar amanhã para a redacção, para sair na quarta...!” Daí que me depare constantemente com a questão “sobre o que é que seria interessante escrever, esta semana?...” E é esse confronto com o vazio que torna interessante qualquer processo criativo. Tal como o escritor perante a folha em branco, o pintor face à vastidão intimidatória da tela limpa, o músico ante o silêncio...
E desta sensação me veio a vontade de escrever sobre esse momento, na aplicação específica do exercício da arquitectura, desse ponto de partida.
Quando se inicia um projecto de arquitectura, há uma série de luzes e indicadores que servem, simultaneamente, de limitadores de “devaneio”, mas também de indicadores de percursos, ou, pelo menos, de pistas de soluções possíveis. E se a componente limitativa pode ter um carácter negativo (e até opressor), não é menos verdade que as pistas que a mesma fonte nos fornece são extremamente úteis no desbravar dos primeiros passos projectuais.
Há sempre uma série de “modeladores” de percurso, inerentes à especificidade da intervenção e da situação, que são uma espécie de criadores do “humor do projecto”. Esses elementos contextuais, que apelidei de “modeladores”, podem ser (como, de resto, já aqui referi, salvo erro, há bastante tempo atrás) de três grandes famílias: de origem regulamentar (por imposições e restrições da legislação aplicável); de origem no promotor da obra, o “cliente” do arquitecto (por requisitos e exigências específicas - incluíndo as de teor económico, claro); de origem técnica (por especificidades do local, das técnicas construtivas disponíveis, da mão-de-obra, etc).
Mas, uma vez detectados estes limites, o arquitecto funcionará como um prisma para o qual converge a luz dispersa, emitindo um feixe preciso e focado pela outra extremidade.
E é precisamente aqui que reside o meu principal comentário de hoje - na forma como o arquitecto agarra nesses indicadores (limitações, exigências, requisitos, etc) e transforma isso num projecto.
Ora, no meu entender, a arquitectura insere-se tanto na família técnica das actividades humanas como na artística. E, partindo deste pressuposto, as duas componentes serão indissociáveis, sabendo que cada uma delas apenas poderá ir até onde não comprometa a outra.
Mas se, como digo atrás, a arquitectura tem uma componente artística inalienável, e entendendo a arte como algo que é, inevitavelmente, comunicação (entre outras coisas), então o caminho do arquitecto deverá ser bastante bem trilhado.
No meu entender, aquilo que é fundamental a qualquer obra que contenha uma faceta artística é contar uma história! Obviamente que não me refiro a uma história necessariamente línear, com um enredo e uma sequência cronológica. Nem sequer terá (nem deverá) de ser uma história palpável e “escandalosamente” perceptível, sob pena de se perder todo o interesse do jogo da comunicação que é o da descoberta-por-envolvimento da mensagem pelo destinatário. Um poema pode ser uma história, mesmo que tenha uma forma extremamente onírica e descontínua. Uma pintura abstracta pode ser uma história. Um gesto pode ser uma história...
No fundo, aquilo a que quero chegar é isto: Um projecto de arquitectura (deixemos agora de parte as outras intervenções artísticas), para o ser, tem de ter um conceito! E esse conceito tem de ser omnipresente (passe a redundância - uma vez que, se não for a bitola de todas as opções, não é um conceito, mas apenas ornamentação teórica episódica).
Quando falo de um conceito, não me refiro àquela coisa primária (quase patética, já) de “quartos virados a nascente, zona de serviços separada das zonas íntímas, pontos de água concentrados, etc”. Isso não é conceito nenhum, e não é arquitectura, sequer - é um conjunto de opções funcionais, de nível básico (ainda que possam ser extrememente válidas, em determinados contextos) que deverá ser posto ao serviço, ou em concordância com o conceito gerador do projecto. Obviamente não vos vou dar exemplos do que será um conceito, porque isso seria até algo paradoxal, num cenário tão abstracto. Mas, para tentar ilustrar o que digo, posso sugerir a imagem de um actor (mas um que seja bom...) que, mesmo recorrendo sempre a uma série de técnicas e processos, mais ou menos académicos e reincidentes, pauta-se sempre por um conceito - o da personagem que está a interpretar. Ele absorve a essência da personagem, e tudo aquilo que faz, mesmo se for um recurso comum a outras interpretações, sai “moldado” por essa personalidade que ele tenta encarnar naquela peça ou filme em concreto.
Bem sei que corro o risco de não ser bem entendido por alguns, porque, infelizmente, esta presença de vida própria (que é o conceito de um projecto específico) não está presente na esmagadora maioria dos edifícios e das intervenções que à nossa volta se faz.
Causa-me sempre alguma apreensão quando falo com algum projectista (note-se que a maioria dos que exercem não são arquitectos) e me explicam um projecto começando pela porta de entrada, depois há os quartos, depois não sei o quê... Isto mostra a total ausência de um conceito de fundo, porque, quando ele existe, a explicação de um projecto passa por uma teia de considerações e de ponderações muito reflectidas, que só adquirem “essa coisa dos quartos e da entrada” numa fase muito posterior e como consequência (quase inevitável) desse conceito. Até porque, de certo modo, quando se inicia um projecto, ele pode ter infinitas soluções, mas, após se surgir essa presença de um conceito no processo, a solução é quase “a única possível”. A própria coerência de raciocínios e de gestualidades quase tem essa inevitabilidade implícita.
Não me entendam mal! O conceito não deve ser algo que freneticamente se busca numa tentativa de minimizar falhas de inspiração ou de recursos, nem deve ser algo que se introduz no processo para “explicar o inexplicável”. Ele deverá surgir de forma expontânea, e tal até poderá nem acontecer de forma consciente ou racional. Mas, ao surgir, vai subtilmente moldar os nossos gestos, aferindo coerência e vigor ao projecto, dando-lhe uma vida própria.
Numa comparação algo lacónica, a ausência de um conceito próprio na elaboração de um projecto poder-se-ía ver como a produção de um filme em que a história é sempre (por exemplo) a de um rapaz que conhece uma rapariga, apaixonam-se, acontece uma desgraça, vencem a desgraça e vivem felizes para sempre. Apenas se vai mudando os actores, as suas roupas, os penteados e pouco mais. O resultado é uma produção em série de “lixo-repetitivo desprovido de conteúdo e de carácter”.
Na arquitectura pode-se falar da mesma forma. E basta olhar à volta...
Numa altura em que não se pára de falar na revogação do artigo 73/73 (que permite a realização de projectos de arquitectura a outros que não exclusivamente arquitectos) é necessário que isto seja compreendido, e que deixemos de ter “projectos à desenhador” - em que lá estão os “quartos virados a nascente, a zona de serviços separada da zona íntima, etc, etc”, num exercício de pseudo-arquitectura capaz de adormecer uma águia em pleno vôo picado. Pior do que isso - capaz de nos dar cabo (ainda mais) do edificado e da qualidade de vida às famílias portuguesas, cuja maioria, obviamente, não está sensibilizada para este tipo de questões e delega essa tarefa e responsabilidade (e muito bem) nos projectistas...
Ponha-se lá os quartos a nascente. Ponha-se lá as zonas de serviço separadas das zonas privadas. Ponha-se lá tudo isso na mesma, se assim se justificar. Mas ponha-se isso ao serviço de uma ideia qualquer, e não sendo apenas isso a ideia.
E era este o meu conceito de hoje...

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

os meus parabens.

sou estudante de arquitectura de 1º ano e não conseguir ficar indiferente a este texto, apesar de me ajudar e muito no entendimento do conceito, finalmente consegui perceber a sua importancia.

02 dezembro, 2007 21:27  

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