13 julho 2005

21 _ elas comem tudo (e não deixam nada)

Numa perspectiva mais focalizada, nestas coisas da arquitectura, debruço-me hoje sobre um aspecto menos conceptual - o da construção, nomeadamente das patologias.
Nesta vastíssima matéria, há uma situação que me atrai a atenção e me preocupa sobremaneira. Refiro-me a um fenómeno que poderia apelidar como se de um filme de ficção científica série B se tratasse. “O Ataque das Térmitas!”.
Em 1954, Gordon Douglas realizou Them! - um filme pioneiro no sub-género do terror/ficção-científica da ameaça de insectos gigantescos, em que o Novo México era atacado por formigas gigantes. Na altura isto era uma reflexão apreensiva sobre a era atómica e os insectos gigantes eram uma sórdida metáfora da ameaça comunista, no despontar da guerra fria. É um filme que aconselho vivamente aos amantes do género, ou do cinema em geral.
O “filme” de hoje em dia não nos traz insectos em tamanho desmesurado, mas também não nos traz o conforto de sabermos que depois da sessão acabar, voltamos para nossa casa e tudo não passou de um produto de uma fértil imaginação e criatividade. A ameaça continua, para nós.
A maior parte das pessoas nem acredita que as térmitas existam no nosso país. Acham que é uma coisa “lá das Áfricas”... Mas, na realidade, há umas boas dezenas ou até centenas de variedades de térmitas, algumas das quais em Portugal.
A térmita é, no fundo, uma formiga. A diferença é que é uma formiga que se alimenta de celulose. E vai encontrar esta celulose nas madeiras, sobretudo nas macias. E não se trata do vulgarmente designado por “bicho da madeira”. Esse é o caruncho. A diferença é que o caruncho é mais facilmente detectável e a térmita tem uma velocidade de destruição incrivelmente superior à daquele. Uma casa minada de térmitas pode ser literalmente devorada em dois a três anos!
Basicamente há dois tipos de térmitas: as de superfície e as subterrâneas. As primeiras são menos “perigosas” do que as últimas, apenas porque mais facilmente se detecta a sua presença, enquanto que as subterrâneas podem causar danos incríveis antes de serem notadas.
Para que se perceba como se pode diagnosticar a praga, aqui ficam alguns indicadores:
Caruncho: uma espécie de escaravelho pequeno (3-9 mm) que deixa orifícios redondos na superfície da madeira, com algum serrim em torno deste.
Térmita de superfície: formiga com uma pluridade de indivíduos, na sua comunidade, com fisionomias diferentes; pode ser vista sobre a madeira; faz orifícios em galerias desordenadas, mas geralmente ao sabor dos veios da madeira, seguindo o curso da madeira mais macia; deixa pequenos montes de serrim junto aos orifícios; metamorfoseia-se durante a sua vida, e, a um certo momento, ganha asas, com as quais migra para formar novas colónias. Estas asas são diferentes das das formigas comuns, pela diferença de comprimento entre o par anterior e o posterior.
Térmitas subterrâneas: semelhantes às de superfície, mas não suportam a exposição solar, pelo que são dificilmente visíveis; não deixam resíduos; podem devorar o miolo das madeiras, deixando-as apenas com uma pequena capa superficial (que protege as suas galerias da luz do sol), antes de tal ser apreensível do exterior.
Ora, o problema não está em identificar correctamente a praga, porque há inúmeras empresas especializadas na matéria. O problema está em tratar-lhe da saúde atempadamente e correctamente. Numa perspectiva mais assustadora, pode-se comparar uma praga de térmitas a um cancro, que corroi por dentro, sem se ver, e que, se não for correctamente controlado e saneado, vai manifestar-se noutro ponto qualquer, até causar o colapso.
A grande questão é o custo dos tratamentos eficazes... Há dois tipos de tratamento: um que funciona de forma localizada, através de injecções nas madeiras “infectadas” e na substituição das peças mais degradadas. Este tratamento é substancialmente mais barato, mas, tal como diz a sabedoria popular, o barato sai caro! Quase sempre, passadas duas ou três temporadas, aí estão elas de volta, em força. Isto porque as térmitas são extraordinariamente bem organizadas, e não é qualquer injecção que as vai conseguir apanhar... Elas escapam durante o processo de extermínio, alojam-se noutros pontos, recolhem-se em sítios onde a impregnação não as atinge, etc. E, se não morrerem rigorosamente todas, mais cedo ou mais tarde já serão de novo numerosas (uma fêmea pode colocar até três mil ovos por dia!!). Para além disto, a aplicação de injecções não torna a casa imune, apenas mata a população existente, e apenas na área tratada. Frequentemente, esta solução origina a debandada das térmitas para os edifícios vizinhos, agravando a dimensão da praga. E assim sucessivamente...
O outro método (mais oneroso mas mais eficaz e consequente) consiste na gaseificação de todo o interior dos edifícios. Estes são selados, e é largado um gás que penetra profundamente em todos os poros da madeira e das paredes (onde pode haver nidificação), exterminando completamente a população existente, imunizando essas áreas, e aferindo uma resistência a futuros ataques. Paralelamente a este processo, aplica-se uma série de injecções no perímetro do edifício ou nas suas fundações, criando uma barreira à invasão destes insectos, que se podem deslocar pelo solo ou por paredes de menor densidade.
O ideal seria que estas práticas fossem levadas a cabo numa perspectiva de “zona”, havendo intervenções de conjunto, a nível da vizinhança, de quarteirões, para se ter a certeza de que a praga é erradicada e o conjunto de edifícios fica imunizado. Porque os actos solitários podem contribuir para a deslocação da praga e o seu desenvolvimento e disseminação. E, inevitavelmente, eles virão bater à nossa porta de novo! Como um cancro mal curado, que se elimina de um orgão, mas que surge, logo de seguida, noutro ponto, e noutro...
Mas isto é a cura. Claro que a prática mais lógica seria a da prevenção. E isto passa, apenas e só, por três pontos, de importância crescente: manter os interiores bem arejados; eliminar as humidades no interior dos edifícios e nas paredes (um dia aqui falarei desta questão e de como proceder); tratar convenientemente as madeiras. É este último ponto o essencial, sem o qual nenhum dos outros é suficiente. E atenção, porque tratar as madeiras não quer dizer aplicar um tapa-poros, um verniz, ou um tratamento qualquer de superfície. Tem de ser com um produto que seja efectivamente um anti-xilófago. Não vale a pena ouvir nada que os vendedores ou a sabedoria do “eu sempre fiz com isto” possa dizer. Só um verdadeiro anti-xilófago, correctamente aplicado - com as devidas demãos, nas duas faces das tábuas e (muito importante!) nos topos que encostam às paredes (pontos de grande vulnerabilidade) - será eficaz e fiável. É essencial que esta prática seja bem aplicada em obra, sob pena de continuarmos a ter os nossos edifícios a serem comidos por esta praga silenciosa e discreta.
A Europa está a ser invadida por térmitas a um rítmo acelarado, com problemas gravíssimos (veja-se o caso da destruição de património, por exemplo) e enormes dores de cabeça daí resultantes.
Num conto de Patrick Süskind intitulado “O legado de Maître Mussard”, é relatada a obcessão de um velho homem com formas conquíferas que ele julga estarem a invadir o mundo pelo sub-solo, transformando o planeta numa gigantesca concha. Eu não queria que me entendessem como paranóico semelhante, com este alarme para a questão das térmitas. Mas estudem bem os sintomas, façam umas perguntas por entre os amigos, e vejam lá qual é a percentagem deles que já tem umas “formigas de asa que deixam um pózinho” lá por casa...
(p/ RC)