06 julho 2005

20 _ há festa na aldeia

A feira chegou ao fim!
Os stands de exposição, as barraquinhas da horta das laranjeiras, os carroceis, o palco do jardim público, o palco jovem, as exposições - tudo vai ser cuidadosamente desmontado, carregado, transportado, guardado, e armazenado até ao ano que vem, para mais uma feira de S. João. A cidade já se habituou a este período de folia, diversão, animação e fulgor que a feira lhe traz.
Antes da feira foi a comemoração do 25 de Abril. Também havia palcos, exposições, animação, folia...
Depois da feira será a campanha eleitoral. Também haverá palcos, animação, muito mais fulgor!
Mas, serei só eu, ou estas coisas assemelham-se às festividades das aldeias - aquelas de onde vinham os nossos pais, os nossos avós, a nossa origem?
Estas festas pontuais (que, de resto são apaixonantes e de saudar calorosamente) não serão um apressado oásis na aridez cultural de uma cidade em desertificação? Não falo de desertificação demográfica, mas de ausência de viçosidade cultural e lúdica, tão necessárias (mesmo essenciais) à condição de cidade urbana.
A cultura, a arte, e todas as manifestações que contêm algo de transcendente (no seu estado pagão) e de estreita ligação com o ócio e com os prazeres do espírito, nascem de uma sofisticação da sociedade. Acho que já falei disto por aqui... Só uma sociedade que atinge um certo nível - social e económico - é que se pode “dar ao luxo” de produzir arte e cultura lúdica de forma continuada. Daí que a cultura, como atitude, seja, geneticamente, uma “invenção” urbana. Nas tais aldeias dos nossos pais, as manifestações culturais também aconteciam uma vez por ano. Ou duas, ou três, mas sempre em datas precisas, para as quais as pessoas se preparavam, libertando-se de todos os afazeres, para nelas poderem tomar parte. Durante o resto do ano não havia cá vagar para bailaricos ou festança, que o burro quer palha, a ovelha quer ir ao pasto, o milho tem de se debulhar, e já lá vem a geada...
Uma cidade (que o queira ser) não pode ter esta realidade provinciana de cultura.
A feira de S. João, é um acontecimento fantástico em Évora! Também não esconde um certo carácter bucólico, e talvez ainda bem que assim seja. Mas uma capital de distrito, uma cidade património mundial, um centro estudantil, um local de destino de turismo de grandes quantidades, como é Évora, não pode ter meia dúzia de eventos de carácter efémero e delegar neles a necessidade cosmopolita de oferecer urbanidade aos seus habitantes e visitantes.
Quero referir-me, mais precisamente, a uma situação que constitui (para mim e para a maioria dos meus colegas de profissão, de gente da cultura e de pessoas de bom senso) uma dor de alma nesta cidade: o Salão Central.
Nas comemorações do 25 de Abril deste ano, a Câmara Municipal organizou uma série de eventos, alguns dos quais tiveram lugar no Pátio do Salema. Quem por lá tenha passado, terá visto a capacidade natural fabulosa que este local tem para albergar iniciativas desta índole. Se não veja-se:
Uma praça, com condições de acolhimento excelentes - bem ladeada por edifícios de porte, morfologia e utilização vantajosos.
Uma localização magnífica - no centro da cidade, com condições de acessibilidade óptimas (e a vida não se faz só ao volante de um automóvel - já para prever falsos argumentos de contestação ao que digo).
Uma funcionalidade soberba - permite a realização de eventos de vária espécie (já por lá se fez espectáculos, concertos de música, projecção de filmes...), com recurso aos vários cenários próprios da praça e à sua relação com o espaço vazio e de circulação desta.
Uma morfologia urbana privilegiada - trata-se de um espaço contido, definido e com bastante personalidade, que pode, inclusivamente, ser facilmente interditado pontualmente ao trânsito, durante a ocorrência de espectáculos, sem haver a menor dificuldade no desvio do tráfego (isto permite a realização de praticamente todo o tipo de eventos, possibilitando, inclusivamente, a cobrança de bilhetes ao público, se tal porventura se justificar).
Uma disponibilidade de espaços versáteis e complementares que, em exclusividade (não há habitação nesta zona, o que lhe eleva, sobremaneira, o potencial cultural), conferem ao pátio a versatilidade de poder ser o ponto exacto dos acontecimentos, ou o ponto central, em torno do qual gira a variedade de acontecimentos - de um lado, o edifício da SOIR Joaquim António de Aguiar (por si, um espaço já vocacionado para as manifestações culturais e artísticas); ao lado, um espaço devoluto (não sei qual o seu estatuto real, tecnicamente falando), conhecido como Juventude, que é uma sala com uma área e volumetria interessantíssimas para a realização de outro tipo de eventos; em frente, um fantástico foyer “natural”, que é a arcaria de permeabilidade no pátio, já de si possibilitando a relação com o pequeno pátio adjacente (Pátio de S. Pedro, se não estou em erro), inclusivamente enriquecido pela varanda que o encima; por fim, a cereja no topo do bolo, o Salão Central - um magnífico edifício, da autoria de um dos mais importantes arquitectos da nossa história (de F. Keil do Amaral, edificado em 1943), construção notável e de interesse profundo, quer do ponto de vista arquitectónico, quer do ponto de vista urbanístico. A localização de um equipamento desta natureza num espaço como o Pátio do Salema é uma realidade que muitas cidades gostariam de ter, e que a nossa parece estar a ignorar. Diz-se por aí, em jeito de boato, que o Salão Central será vendido... Alguém, com um sentido de humor suficientemente negro para despertar interesse, resolveu pintar grafittis de anúncios de venda do imóvel. Os boatos são enganosos, e este sê-lo-á, queremos todos acreditar..! Mas o que é certo, é que se diz por aí, em surdina, que até já lá foram uns avalistas, chamados pela Câmara Municipal... Eu não sou negociante de imóveis, mas na minha terra, quando se chama um avalista é para se vender um imóvel...
Pode ser que não, e que tudo isto seja um boato sem fundamento real. O outro dizia que, depois de ter visto o tal porco a andar de bicicleta num circo, já acreditava em tudo. Pois eu ainda não acredito em tudo, e não quero acreditar que este, ou qualquer outro executivo municipal possa cometer um acto tão grave, inconsciente e lesivo para a sua população e para a sua cidade, como seja o de alienar definitivamente um equipamento de interesse relevante e um elemento de património de destaque. Mas também não seria mau que o edil primasse um pouco mais pela transparência e que contasse aqui ao povo o que raio está a pensar fazer com o nosso Salão Central, que não ata nem desata! Esperemos que seja uma história com um final feliz...
A potencialidade de um conjunto como o do Pátio do Salema, com a sua localização privilegiada, com todas as suas potencialidades de utilização, com a sua riqueza arquitectónica e com a sua disponibilidade em termos de equipamentos e espaços existentes, transforma este espaço, real e existente na cidade de Évora, numa quasi utopia para a maioria das cidades que lhe são demograficamente e contextualmente equiparáveis.
É uma magnífica oportunidade para dotar esta cidade de um cariz mais urbano, cosmopolita, e mesmo citadino, numa época em que, cada vez mais, me vêm à cabeça as palavras de Vergílio Ferreira, que por cá passou, por cá viveu uns quinze anos, e aqui escreveu a “Aparição”, onde diz, pela boca da sua personagem principal (Alberto Soares), ao confrontar-se com a realidade eborense: “Évora: cidade onde não se pode ter mais do que a quarta classe, nem menos de quatrocentos porcos”.
Évora pode fazer a diferença! O seu estatuto de Cidade Património Mundial da UNESCO exige uma outra dinâmica cultural, e permite muita intervenção a este nível. A vertente turística desta bela cidade não pode assentar apenas em ruelas charmosas de casario branco e em migas, pézinhos de coentrada e ensopado de borrego...! Pede-se dinâmica, vida cultural, personalidade. Mais do que a Feira de S. João (bem haja). Mais do que as comemorações do 25 de Abril. Mais do que a campanha eleitoral que deve estar para aí a rebentar. Para que se abandone esta musealização da urbe, e se sinta o pulsar de uma cidade viva, com uma palavra a dizer.
Porque, senão, só teremos outra vez as barraquinhas das farturas, os carroceis, os stands expositivos, e mais duas semanas de folia...
E, de novo, haverá festa na aldeia...