30 junho 2005

19 _ eu não queria morar numa favela

Numa das crónicas passadas, deixei a promessa de que um destes dias dedicaria algumas linhas à temática dos chamados “condomínios fechados”. E é a propósito do fenómeno bombástico do “arrastão” da Praia de Carcavelos, no passado dia 10 de Junho, que esse tema me parece pertinente.
O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Para se perceber a relação, é necessário analisar os acontecimentos da praia numa perspectiva mais dilatada - até porque, tal como tenho insinuado frequentemente, isto da arquitectura (e do urbanismo) tem muito mais a ver com as questões sociais, psicológicas e triviais da vida e da organização social do que com tijolos e cimento, formas e volumes, ou técnicas e materiais de construção.
É, portanto, necessário arriscar uma análise das causas do problema, e não das soluções fatais, como o facilitismo “higiénico-repressivo” preconiza. Permito-me a reflexão social, ao dizer que é mais do que irresponsável e egoísta a postura da simples punição dos autores do sucedido, e da prevenção, pela autoridade, de futuras sequelas, resumindo-se, tais medidas, ao foro paliativo. Pode-se pensar que os autores do mal-afamado “arrastão” são apenas uma cambada de selvagens, ou uma corja de vândalos, que isso apenas serve para suscitar ódios míopes e para conter a pressão que, inevitavelmente explodirá por outro lado. De resto, foi exactamente isso que aconteceu - a explosão de pressões acumuladas (o facto de se ter passado no dia de Portugal será um acaso, ou uma sarcástica nota deixada a toda a sociedade?).
Os intervenientes nos distúrbios do 10 de Junho são (pelo menos assim parece) oriundos, na sua esmagadora maioria, de zonas problemáticas e com baixíssimos índices de conforto, inserção social, qualidade de vida, acesso a critérios mínimos de bem-estar social, etc, etc, etc... Sem ser necessário argumentar muito sobre o racismo latente na cultura portuguesa (e se ele existe!), é por demais evidente a ostracização infligida na considerável (e crescente) população de emigrantes oriundos dos países africanos. Durante anos a fio eles foram (e são) impedidos de ter acesso a níveis de vida e a oportunidades que pudessem permitir a sua integração real, resultando, essa barreira, na “guetização” dessa população. Não é um raciocínio difícil. Difícil é admitir que isto continua e é, também, perceber que tudo (ou quase) foi feito de forma semi-intencional, com o mesmo propósito mesquinho e côxo de muitas das intervenções sociais da nossa cultura (como seja, por exemplo, a questão do sistema penal - não se trata de auxiliar pessoas com dificuldade de inserção, trata-se, sim, de as afastar da nossa área e de os impedir de nos incomodarem - o princípio do depositório de elementos problemáticos, ao invés do da sua reabilitação e reinserção. Isto é podre na sua essência, e gera um fosso entre duas realidades, com a clara supremacia de uma delas e a consequente revolta crescente da outra.
Alguém, num dos nossos jornais que ainda dizem coisas de ler, dizia, lucidamente, que o processo de intervenção num caso destes não passa pela repressão e pelo reforço da autoridade (pelo menos não passa só por aí), mas antes por algo que se pode invocar pela letra de uma das canções do Sérgio Godinho “paz, pão, habitação, saúde, educação”. É nestes pilares básicos da integração social que assenta a dissolução de tensões sociais. Todos os quadrantes políticos estão de acordo nisto - ainda que, depois, procedam de formas diferentes, de acordo com as suas convicções, para atingirem esse fim. Ora, o problema, é que esse fim está muito longe da realidade, e dá-me a impressão de que fica lá do outro lado, e não daquele para o qual nos dirigimos...
O condomínio fechado? É isto, no fundo... Trata-se da maior declaração de fiasco e de total inoperância das opções sociais em que fundamentamos a nossa organização. É o atestado de incompetência e disfunção totais da sociedade que criámos. O processo é análogo: A ideia já não é permitir a convivência de todos os membros de uma sociedade. Nem sequer é a de sonhar com isso. Agora trata-se de trepar por aí acima, passando por cima do que se puder passar, para poder alcançar meios para o refúgio da sociedade apodrecida. Ou seja: passámos tanto tempo a depositar os “elementos indesejáveis” da nossa sociedade à margem do nosso mundo, que a margem foi crescendo e tornou-se maior do que a folha. Agora resta tentar comprar um refúgio, longe dessa margem que já inunda o resto da folha. Já não chega criar (ou deixar criar) os bairros carenciados, para que os elementos que ali vivem vão “morrer longe” e não nos incomodem. Trata-se de criar ilhas paradisíacas, dentro da sociedade, onde ninguém pode penetrar, para aí irmos (aqueles cujo nível económico o permita) buscar refúgio, num modelo proto-fortificado. Na gloriosa época do cinema de terror, eram frequentes as situações em que o herói, para escapar à crescente e imparável ameaça dos mortos-vivos, se trancava dentro da cela da prisão, com a chave por dentro. Aí têm os condomínios fechados, numa perspectiva crua e desencantada! Uma zona de estacionamento onde os nossos carros não sejam assaltados nem vandalizados; uma zona de lazer onde os nossos filhos não sejam corrompidos e não os seduzam para vícios e práticas impróprias; uma barreira de protecção que impeça “esses vândalos que por aí andam” de encher as paredes das nossas casas com grafittis; uma piscina onde impere a selectividade e a esterilização obcessiva; e por aí fora, etc, etc, etc.
Não digo que tudo isto não seja, até certo ponto, compreensível, porque a abnegação individual e pontual não soluciona, geralmente, problemas sociais de grande escala (que me perdoem o Ghandi, o Martin Luther King, o Hassan Fathy, e outros que provaram o contrário, mas falo em termos gerais). É perfeitamente aceitável que o cidadão comum se queira refugiar deste caos em que vivemos. O que não é aceitável é que a sociedade, no seu todo, continue a caminhar para este abismo, sem que haja uma tomada de consciência e de atitudes no sentido contrário. É claro que o urbanismo pode resolver uma parte importante do problema, ao criar estruturas que melhor permitam a vida social em todos os seus aspectos - conforto, funcionalidade, segurança, interacção social, etc. Mas quem faz o urbanismo não são os urbanistas, mas as opções políticas de fundo e específicas. Continua-se a descuidar este aspecto, criando amalgamas de betão, para onde as pessoas são lançadas (as que conseguem, porque as outras remedeiam-se em condições precárias e opressoras). Depois cria-se os condomínios fechados, onde, em escala reduzida e contida, se tenta gerar tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse no nosso espaço urbano. Mas, mesmo que esses condomínios fechados tivessem uma óptima qualidade (o que, frequentemente, não é o caso) um conjunto de belas frases não faz um bom poema. Ou, como dizia Hassan Fathy (que já referi atrás) a beleza de algo não resulta da sua forma, mas antes das forças que se unem para lhe darem vida.
Da reconhecida verborreia que impera no mundo do futebol, lembro-me de uma frase que associo a tudo isto: “o nosso clube estava à beira do abismo, mas agora demos um passo em frente”. E de bola percebemos nós!