08 junho 2005

18 _ terra à vista

Há alguns dias atrás passei pelo castelo de Paderne e verifiquei que a obra de consolidação e recuperação das muralhas daquele magnífico monumento está, finalmente, em curso e a um rítmo ambicioso.
O Castelo de Paderne (ao qual já tenho feito referência, algumas vezes, nestas crónicas) é um monumento de carácter singular no panorama nacional, e apresenta (ou apresentava) um estado de conservação muito aquém do tranquilizante e muito além do indignante. Trata-se de uma edificação militar, de carácter defensivo, erigido nos finais do séc. XII, durante a reconstrução e consolidação da “linha da frente” da dinastia Almoada (ainda que haja alguns indícios de que a sua construção original seja, de facto, do período Almorávida). Essa “linha da frente” foi erguida no curto período de cerca de 40 anos, e definia o último reduto da ocupação moura na Península Ibérica, numa sequência de fortificações que incluíam, ainda, Silves, Niebla, Sevilha, etc., até ao abandono definitivo dos mouros, em 1259. Tal como aconteceu com a maioria das fortificações mouras, o reino português adaptou-a ao seu próprio uso, e manteve-a activa, ainda que a inevitável sobreposição da religião vigente tivesse consequências na própria edificação - em Paderne, isto prende-se, principalmente, com a edificação de uma capela cristã, no seu interior, em sobreposição ao templo muçulmano pré-existente.
Mas o que torna o castelo de Paderne único é o facto de este ser o único castelo em território nacional a ser totalmente construído em taipa. Na circunstância, trata-se de taipa militar, cuja particularidade que a define reside na adição de cal à composição final da terra utilizada, e na maior expessura dos muros. Esta, no caso de Paderne, é de 1,98m - ou seja, 3 vezes a medida do côvado (66cm) utilizada na época e naquela civilização.
Há uma série de pormenores interessantíssimos sobre este monumento, que não interessa referir aqui, porque a razão que me leva a escrever sobre ele é a da intervenção que sofre, no presente.
Nos anos de 1999 e 2000, integrei a equipa projectista (liderada pela arqª Teresa Beirão) que desenvolveu o estudo e projecto para a intervenção no monumento, propriedade do IPPAR, após concurso público que, obviamente, venceramos. Por uma série de peripécias (daquelas que nos fazem soltar o tal lamento/revolta “isto só neste país...!”), o projecto não foi terminado, e a equipa técnica foi “dispensada”, passando o IPPAR a tomar nas suas mão a condução do projecto e de toda a intervenção.
Foi então adjudicada a obra a uma empresa de construção que está, neste momento, a proceder aos trabalhos de taipa. Não é uma empresa com muita experiência nesta técnica, mas, apesar disso, protagonizaram uma das obras que me suscitou mais curiosidade e interesse nos últimos tempos - a construção (réplica) de um troço da cerca Fernandina, em Lisboa, no empreendimento junto ao Chiado. Esta obra do Chiado tem projecto de alguém que é considerado um deus-vivo da arquitectura - o arqº Siza Vieira. Não deixa de ser uma alegria para aqueles que, como eu, tentam divulgar a qualidade da construção em terra crua, o facto de tal personalidade ter decidido construir algo com este material. É certo que se trata de um elemento quase histórico-decorativo, e não da utilização das potencialidades do material na construção, mas tal ocorrência não deixa de ser importante.
A tal empresa, dizia eu, procedeu já, em Paderne, a parte dos trabalhos de taipa, com o preenchimento das locas (enormes e devastadoras) das muralhas, e o levantamento de alguns troços de taipa, sempre com a finalidade restrita de consolidar e dar leitura, e não de refazer o desaparecido (de resto, esta atitude tem muito em comum com a que a nossa equipa projectista tinha adoptado, em 99). Mas os trabalhos ainda vão prosseguir até meados de Agosto, com mais taipa para ser feita e com preenchimento de locas, nalguns casos utilizando um sistema desenvolvido pela empresa em questão, de projecção de terra para o preenchimento dos ôcos de expressão horizontal, que se afiguram de difícil compactação pela via “convencional” da taipa.
Por estas razões, ou apenas para conhecerem um magnífico monumento do nosso património (este castelo é um dos que figuram na bandeira nacional), recomendo vivamente uma visita ao castelo de Paderne nos próximos tempos. No dia em que por lá passei, cruzei-me com o arqº Fernando Pinto - colaborador deste jornal e arquitecto da terra desde longa data - e vários outros arquitectos e engenheiros já por lá passaram, e a equipa de empreitada tem todo o prazer em receber todos esses técnicos, e todos aqueles que possam contribuir, com um olhar crítico, para aquilo que por lá se faz e se experimenta. É de ir!
Vem lá outro fim-de-semana prolongado. As romarias ao Algarve serão comuns. É só sair do IP1, alguns quilómetros antes de chegar a Albufeira, na saída para Tunes, e seguir as indicações de Paderne e, depois de chegar à localidade do Purgatório, seguir as indicações do Castelo.
Bem sei que isto mais parece um daqueles artigos de revista de viagens, tipo “vá para fora cá dentro”... Mas olhem que vale bem a pena, sobretudo neste momento, para presenciar a recriação de uma prática construtiva, memória cultural em riscos de amnésia generalizada...