20 abril 2005

16 _ fim-de-semana na terra

Antes de mais, as minhas desculpas pela falta de crónica na semana passada...!
Mas é precisamente sobre as razões que me impediram de a enviar, que agora escrevo. O imprevisto deveu-se ao infindável trabalho em que estive envolvido, na organização e execução de um curso denominado Oficinas da Primavera de construção com terra, no âmbito das acções de difusão e promoção desta(s) técnica(s) construtiva(s), levadas a cabo pela associação a que pertenço - o Centro da Terra.
Foi no passado fim-de-semana (9 e 10 de Abril) que se realizou este pequeno curso de abordagem à construção em terra crua, que decorreu na Universidade Nova, ali para os lados da recém-eleita-a-cidade Costa da Caparica, e que foi um êxito que superou as expectativas. Desde já, todas as vagas (20) foram rapidamente preenchidas, havendo quase um número igual de pretendentes que tiveram de ficar de fora (por razões da orgânica do próprio curso) e o interesse manifestado pelos participantes foi notável, dando toda a legitimidade e pertinência a iniciativas desta índole.
A construção com terra crua prende-se com outras temáticas mais abrangentes e menos especializadas, tais como a sustentabilidade, a discussão em torno da ecologia, a manutenção de patrimónios e identidades culturais, etc. Não será de estranhar, portanto, que seja um assunto que se revista, mais e mais, de um interesse por parte de diversos sectores, num cenário inimaginável para quem, há alguns anos atrás, se debruçava sobre estes assuntos, de forma “insolente” e solitária. Não obstante o alargamento desse interesse a outros sectores, a esmagadora maioria dos participantes neste curso era constituída por arquitectos - jovens, sobretudo (e saudavelmente). De engenharia, design, artes visuais, jornalismo e economia, eram os outros participantes, num grupo que permitia um conjunto de diferentes perspectivas sobre um mesmo tema, situação extremamente enriquecedora para a discussão.
Na manhã de sábado, teve lugar uma série de conferências, apresentadas por especialistas na área, com os seguintes temas: “Construção e Ambiente” (arqª Vera Schmidberger), “A utilização da terra como material de construção” (arqº Miguel Rocha), “Técnicas de construção com terra crua” (arqª Maria Fernandes), “A construção com terra na actualidade” (arqº Miguel Ferreira Mendes), “Técnicas de construção com terra em Portugal” (arqª Mariana Correia) e “Revestimentos em paredes de terra” (Engª Paulina Faria Rodrigues). Foram, assim, abordados alguns dos principais assuntos relativos a esta(s) técnica(s) construtiva(s), permitindo traçar um panorama geral para um melhor entendimento desta realidade, antes de se passar à componente prática.
Na tarde de sábado, o primeiro módulo prático foi a análise de terras (arqº Miguel Ferreira Mendes / arqª Catarina Pereira), onde foi executada uma série de testes de terreno e de laboratório que permitem a análise de uma terra, a fim de se traçar um perfil exacto desta, para que se possa definir em que termos se pode utilizá-la, com recurso a qual das técnicas construtivas, com que possíveis intervenções correctivas e com que cuidados. Ainda que se trate de um processo menos apaixonante do que a construção propriamente dita, esta fase de análise é essencial, já que permite conhecer a fundo todas as capacidades e pontos fracos de uma terra, condição essencial para que se possa tirar o maior partido do seu uso, e evitar resultados menos satisfatórios. Os testes realizados foram, sobretudo, de aplicação no terreno e de observação factual, havendo ainda alguns de carácter laboratorial e de observação mais científica.
Durante o resto da tarde de sábado e no dia de domingo, os participante puderam experimentar, em primeira mão, duas técnicas de construção em terra crua: no módulo de construção em adobe (arqº Eduardo Carvalho / arqº Luis Gama / arqº Francisco Freire), foram executados alguns adobes, bem como a elevação de uma pequena alvenaria e ainda algumas experiências com arcos, tudo com utilização de adobes; no módulo da construção em taipa (arqº Henrique Shreck / arqº Miguel Rocha), foi estudada a montagem e desmontagem do taipal, com as peças que o constituem, e foi construido um pequeno troço de parede em taipa.
A vontade de prolongar as experiências era notória, por parte dos participantes, mas a duração prevista para o curso não permitia mais do que uma abordagem introdutória à realidade da construção com terra crua.
Ao contrário dos materiais industriais, que são rigorosamente idênticos de obra para obra, a terra tem características que podem variar enormemente de local para local. Daí que nenhum curso, por maior que seja, possa ensinar as regras da construção com este material, porque, pura e simplesmente, não há soluções pré-definidas, mas apenas um conjunto de conhecimentos técnicos que se cruzam e confrontam em cada caso, para permitir a escolha da opção mais acertada para cada situação. Ou seja: a parte científica e exacta é importante (e até fundamental - na análise das terras e dos casos e no conjunto de regras básicas do “o que não fazer nunca”), mas a opção a tomar na intervenção preconizada é resultado da sagacidade, bom senso, conhecimento técnico, inteligência, e experiência do técnico. E é isso que confere à construção em terra um estatuto de algo vivo e em constante reinvenção. E será essa a grande razão da paixão por estas técnicas que interagem com os seus utilizadores, numa simbiose que tem tanto de dramático como de romântico.
O Centro da Terra está de parabéns por esta iniciativa, e prepara já um dos maiores eventos de sempre em Portugal, no que diz respeito à construção em terra - o IV SIACOT (Seminário Ibero-Americano de Construção com Terra). Decorrerá no início de Outubro, aqui para os nossos lados (no Convento da Orada, em Monsaraz), e contará com cerca de duas centenas de participantes de todo o mundo ibero-americano, numa série de conferências, debates, exposições e visitas, que permitirão discutir as evoluções, investigações, considerações e problemáticas que todos os especialistas desta área têm desenvolvido, a nível internacional. No primeiro dia deste acontecimento, terá lugar um outro curso de construção com terra, à semelhança do que aqui vos relatei, mais uma vez organizado pelo Centro da Terra (ver informações em www.centrodaterra.org). Só espero ter tempo para escrever as crónicas do diário do sul, por esses dias...