23 março 2005

15 _ verdes são os campos

Na crónica anterior referia-me à intervenção junto das muralhas, na zona entre a Porta de Aviz e a Porta da Lagoa. Falava da relevância de tal processo de remodelação do tecido urbano e, entre outros aspectos, foquei a importância do carácter pedonal e de lazer do espaço a surgir, com alusão à criação de possíveis zonas verdes, não anunciadas pela autarquia, mas de forte pertinência e, tendo em conta a inteligência da equipa projectista, a ter em expectativa.
Hoje refiro-me à importância crucial de que se reveste a existência de espaços verdes (sobretudo arborizados) dentro das malhas urbanas, de pertinência proporcional à dimensão da mancha urbana.
Em cidades com forte cariz cosmopolita, de enquadramento civilizacional de primeira água, tais como Londres ou Copenhaga, a multiplicidade de espaços verdes e a sua cirúrgica localização (ou a disposição do tecido urbano face à sua pré-existência) é uma característica de refinada sofisticação urbanística e, consequentemente, social. A existência de uma série de zonas de lazer, de carácter vegetal e arborizado, com implantação pontual, cria uma série de relações urbanas e de práticas sociais que incutem uma substancial melhoria dos níveis de vida dos cidadãos, da qualidade ambiental, das relações sociais a nível de proximidades e de práticas de grupo, bem como uma redução de alguns dos aspectos negativos das grandes cidades e das extensas superfícies construídas.
A um nível mais perceptível, será evidente a referência ao carácter lúdico dos parques e jardins públicos, estendendo essa potencialidade à própria interferência na ocupação dos tempos livres dos cidadãos em geral, com destaque para as crianças e os idosos.
Numa leitura mais técnica, assinale-se a criação de marcos na paisagem urbana, com a consequente articulação do tecido urbano, pontuado, aqui e ali, por estes acontecimentos urbanísticos. Um pouco à semelhança do que se passava na refinada arte barroca da concepção de jardins, em que estes eram dotados de pontos de tensão - apelidados de folies - que faziam a pontuação do espaço ajardinado, definindo elementos que se conjugavam, na própria criação de percursos e de tempo de utilização do espaço. Será o factor tempo a intrometer-se na arquitectura - que é mais conotada com a exclusividade do factor espaço - através da definição do ritmo de percursos e de pontos de passagem ou de permanência. A introdução de parques e jardins nas cidades densas é um pouco o negativo homólogo desta prática - aqui, ao contrário do que se passava no jardim barroco, o espaço verde será a pausa, a neo-folie.
No campo social, pense-se na abstracção individualista com que a nossa sociedade ocidental contemporânea consome avidamente os seus minutos, entre a forma mais rápida de ir de um ponto a outro, a fuga isolacionista do automóvel, a fortificação do espaço individual (com o expoente máximo no mea culpa dos condomínios fechados) a falsa convivência estéril dos serões televisivos, a delegação das responsabilidades cívicas e até familiares em instituições que nos substituem e nos permitem a amnésia terapêutica, e facilmente se chega à conclusão da enorme importância que terá, neste campo, a existência de zonas verdes, espaços de convívio e interacção social privilegiados.
Como se não bastasse, ainda há as evidentes vantagens ambientais, quer ao nível da melhoria da qualidade do ar, quer ao nível da redução e da quebra de continuidade da obcessiva impermeabilização dos solos urbanos. As manchas verdes, não só permitem um melhor escoamento das águas pluviais, como este é mais benéfico, porque, ao invés de se estar a captar as águas para o sistema de colecta e canalizá-las para as descargas, há uma infiltração directa e local, com a consequente melhoria dos níveis freáticos e de humidade dos solos, com influência a nível das bacias hidrográficas.
Depois, de forma menos perceptível, as zonas verdes acabam por ser pontos de convergência de percursos e de “migrações” a nível urbano, funcionando como verdadeiros nós de tráfego pedonal (isto quando bem estruturadas e implantadas segundo um sistema coerente, naturalmente).
Já que falei em Londres, aconselho todos os que passarem por esta magnífica cidade a “perderem” algum tempo numa visita ao fantástico Hyde Park, onde poderão esquecer-se de que estão numa das maiores metrópoles do mundo, e onde verão uma quantidade enorme de pessoas a praticarem desporto, a passearem, a conviverem, e a fazerem tudo aquilo que apenas uma cidade com elevada qualidade de vida permite. Mas é bom dizer-se que o Hyde Park, apesar de ser o maior e o mais conhecido parque de Londres, é apenas uma das imensas zonas verdes que aquela cidade oferece.
(As três primeiras palavras da próxima frase acontecem com demasiada frequência...!)
Em Portugal, infelizmente, a visão dos responsáveis pelo planeamento urbano está muitas vezes subjugada a “inevitáveis” (como eles próprios apelidam) questões económicas. É tão grande a lista de verdadeiros atentados nesta área, que seria necessário escrever uma crónica diferente em cada exemplar desta edição do Diário do Sul para fazer um apanhado sucinto da situação. Mesmo nas áreas de expansão e nos grandes loteamentos e urbanizações, a preocupação com as zonas verdes é, na realidade, um luxo só para raros casos. A não ser a tal coisa horripilante dos condomínios fechados (um destes dias ainda lá vamos...), que oferecem zonas verdes de “exclusividade higiénica”, onde uma das facetas mais interessantes destes equipamentos (a relação social) está confinada a uma perspectiva elitista, logo, desprovida da sua intenção de génese.
Em Évora temos dois casos. Ou melhor, neste capítulo, como em tantos outros, temos duas Évoras - uma dentro das muralhas e outra fora delas. No exterior há uma carência clara de espaços verdes de qualidade com uma escala urbana e adequada à sua localização e zonas de acção. Atenção que eu não falo de umas árvores que por ali ficaram depois das máquinas terem terminado os prédios. Falo de espaços qualificados, com intencionalidade e capacidade de diálogo no contexto urbano em que se inserem. E com uma relação extrínseca entre eles, de modo a resultarem no tal conjunto de pontos e vírgulas da paisagem contruída, a tal pontuação da malha urbana, de forma a que o todo ganhe uma coerência e uma continuidade, em vez da justaposição de nadas. Tal como em ocasiões anteriores, refiro a notável excepção da malagueira - que é, de facto, o único sector de cidade extra-muros com um projecto urbanístico de grande coerência e continuidade, no diálogo com a envolvente e com a sua própria morfologia e estrutura. E não me refiro sequer à qualidade dos edifícios em si, mas apenas à sua inter-relação e à estrutura urbana que os articula, juntamente com os tais espaços verdes, e ao carácter coeso, dialogante e extrovertido daí resultante, pouco comum na maioria dos bairros cá do burgo. Assim se vê a diferença entre expansões planeadas ou “anarquizadas”.
Mas falava eu das “duas Évoras”. Ora, no centro histórico, o cenário é bem menos cinzento do que o anterior. De facto, não há uma quantidade considerável de zonas verdes, mas a maior parte das pequenas que existem tem um charme e um diálogo com a malha urbana perfeitamente espantosos. É de lamentar que a maioria das pequenas praças que, de forma tão naturalmente perfeita (passe a sublimação), articulam a magnífica estrutura urbana do centro histórico, sejam, com o passar do tempo, despojadas da sua função social e de lazer, para aí surgir mais um parqueamento automóvel. Desta questão falarei noutro dia. Para já fica a referência à simplicidade genial com que as pequenas praças e zonas verdes (no melhor cenário, os espaços que são ambas as coisas, em simultâneo) se alimentam da malha urbana e a criam, numa simbiose perfeita de espaço-envólucro, cheio-vazio.
Mas devo confessar que a minha vontade de escrever esta crónica veio pelo desejo de elogiar um espaço magnífico dentro desta cidade - o jardim público e, em particular, a mata que lhe é adjacente. Poucas cidades se poderão dar ao luxo de ter uma mancha verde da dimensão e qualidade desta, tendo em conta que a sua proporcionalidade deverá ser medida com referência ao centro histórico. Mas penso que qualquer comentário será redundante, pois basta um pequeno passeio por lá para se perceber tudo.
Seria bom que as novas intervenções na cidade também me dessem vontade de escrever crónicas de elogio...