09 março 2005

14 _ a seca chegou às docas num dia assim

No dia em que foi publicada a crónica anterior a esta, a primeira página deste jornal era ocupada pela notícia que dava conta do projecto municipal de reconversão da faixa junto à muralha de Évora, entre as rotundas conhecidas como Porta de Aviz e Porta da Lagoa.
Sobre o programa desta intervenção, afiguram-se-me dois comentários:
O primeiro é de grande satisfação. Não tanto pela que julgo ser a motivação principal da autarquia (já lá iremos), mas antes pelo resultado urbanístico que daí resultará. Quando se analisa a zona em questão, chega-se à rápida conclusão de que se trata de toda uma área que, apesar da localização privilegiada, pouco mais apresenta do que a desolação e o ruído visual e urbanístico de um baldio, completamente descaracterizado e desinteressante. Não só assim é, como se pode, inclusivamente, falar de um “espaço-tampão” na fluência entre as zonas intra e extra-muros.
Há, em Évora, uma clara e, no meu entender, nefasta dissociação entre o preservado e carismático território do chamado centro histórico, e a zona amorfa que o circunda e se estende por todo o tecido urbano exterior às muralhas. Existe aqui uma clara força centríputa, natural nas cidades que possuem um centro histórico bem definido e com características fortes, sobretudo naquelas que ainda não sofreram grandes expansões acompanhadas por planos de ordenamento audazes e abrangentes que tenham dado origem a novos pontos de tensão urbanística e, eventualmente, até a novos centros. Essa força centríputa acentua a convergência da realidade urbana para o seu centro, o que, per si, não é uma contrariedade, mas, no caso eborense, o problema é que deixa a sua envolvente com um certo carácter de espaço restante, germinado por bairros-dormitório e loteamentos incoerentes, quase sempre com a sórdida preocupação da expressão mimética do “típico-tradicional-castiço eborense”. Como alguns se lembrarão do que escrevi há uns tempos atrás - sobre a questão da ausência de intervenção arquitectónica e urbanística de carácter contemporâneo em Évora e da consequente pseudo-mumificação do edificado - a produção de “casinhas” (porque outro termo não poderá ser aplicado) a imitarem, mal e grosseiramente, os interessantissimos edifícios do centro histórico, não só cria e reflete a ausência de desenvolvimento cultural e técnico, como cai na inevitável armadilha de criar algo que, como diz o povo, “nem é carne nem é peixe”.
É por isto que o anúncio da intervenção junto das muralhas se reveste da maior importância e é motivo de exultação para todos os que tratam de assuntos de edificado. Para mais, se se tiver em conta o curriculum e a reconhecida sagacidade do arquitecto anunciado para projectar a intervenção, só se pode esperar um passo importantíssimo (e que urgia) na definição e na tomada de consistência do tecido da cidade.
O primeiro motivo de interesse prende-se com a criação dos equipamentos e serviços a implementar, que poderão vir a dotar esta cidade (que está culturalmente moribunda) de uma nova energia, essencial ao carácter cosmopolita que qualquer capital de distrito da europa do século XXI tem a obrigação de oferecer. A integração do Forte de S. Bartolomeu numa nova malha vem atenuar o desencanto que a degradação daquele monumento transmite. A criação de uma área ampla, com multiplicidade de espaços e, sabiamente, com preferência para o uso pedonal e de lazer, constitui outro dos pontos de grande interesse e pertinência deste projecto. Espera-se a criação de zonas verdes, que tanta falta fazem e tanto prazer e funcionalidade proporcionam, sendo um dos indicadores de verdadeira modernidade na concepção de tecidos urbanos (veja-se o exemplo de cidades como Londres, Copenhaga ou Paris). Mas, sem dúvida alguma, a maior mais-valia desta intervenção é a criação de uma zona de transição entre a cidade extra-muros e o centro histórico, que poderá vir a funcionar como charneira de metabolismo urbano, permitindo a consolidação social (e, num cenário semi-onírico, urbana) do território exterior. É essencial que a cidade transborde para fora deste colete de forças que são as suas muralhas - grandes demais, como dizia, metaforicamente, Vergílio Ferreira, que por cá esteve 14 anos. E isto não implica malefícios de espécie alguma para o seu interior. Antes pelo contrário, porque distribui a carga de esforço do metabolismo urbano. E a melhor forma de honrar e destacar a beleza do centro histórico é não o copiar, mas antes dar-lhe o seu carácter de único e genuíno. Bom seria que outros pontos, tais como o Rossio (para o qual há tanto tempo se fala de uma intervenção com intenções da mesma estirpe) fossem objecto de remodelações profundas, que estendessem esta saudável promiscuidade entre o dentro e o fora das muralhas, anulando esta postura de sagração do antigo, herdeira de políticas obsoletas e nefastamente prolongadas até aos dias que correm, contrariando o espírito inovador que, outrora, fermentou os fazedores das nossas actuais antiguidades.
A minha segunda observação relativamente ao projecto da zona das muralhas prende-se com o negativo da fotografia atrás captada. A criação de uma zona destinada a bares e a restaurantes encerra, em si, uma faceta estagnante e, de certa forma, um mecanismo paradoxal. Desde logo sobressai a contradição em dois pontos: Primeiro, se se quer criar uma zona de transição “entre dois territórios”, de forma a tornar mais fluída a vivência cosmopolita da urbe, como é que se cria uma zona que concentra toda a actividade de um sector? Não será isto a antítese da fluidez? Não será apenas a transladação do problema? Ou, pelo menos, a ausência de uma nova solução? Em segundo lugar, se se quer (como espero que seja, pelo que digo ao longo destas linhas) retirar aquele carácter sagrado e intocável ao centro histórico, através da sua maior permeabilidade e relação com o exterior, porque é que se está a dar-lhe um tratamento especial, alegando a sua impossibilidade de conter espaços de animação nocturna? Não será isto estar a dar a última pincelada de óleo, antes de enfaixar a múmia?
A concentração de actividades num só espaço gera uma série de problemas e carências nesse espaço, e uma série de lacunas nos espaços sobrantes. A dinâmica urbana de uma cosmópole resulta, precisamente, da heterogenização do seu tecido. É certo que há zonas com ocupações de tendência privilegiada e com utilizações preferenciais. Mas isto não pode funcionar em absoluto e levado ao exagero da exclusividade. Todos nós sabemos que a questão da animação nocturna é um pau de dois bicos, de resolução delicada. E todos nós (exceptuando alguns boémios radicais) sentimos que todos têm direito ao seu descanso imperturbável e a condições de conforto no seu lar. Mas isso não pode servir de motivo à tomada de medidas extremas, que se afiguram mais como imposições ciclópicas do que como criação de melhorias de condições. Os bares e estabelecimentos nocturnos causam ruído e problemas diversos. Mas há casos em que, mau grado a sua localização delicada, os bares tomaram medidas que atenuam, ou até dissipam estes efeitos. São poucos, é certo, mas, se calhar, são aqueles geridos com mais cuidado e responsabilidade, e que tomaram as devidas medidas para estarem em conformidade com a lei e com o eticamente correcto e justo. Porque é possível, na esmagadora maioria dos casos, intervir nos edifícios e levar a cabo práticas correntes de forma a não criar problemas de perturbação do ambiente nocturno. Há é poucos que o querem fazer. Que tal, então, ser mais rígido no licenciamento dos estabelecimentos (e é quando eles estão licenciados...) em vez de os juntar todos num enorme saco de lixo e os despejar ali ao pé da rotunda da Lagoa? A fruição da cidade, a sua dinâmica e fluidez, para mais tendo em conta as suas dimensões, precisam de um jogo mais articulado de implantação de acontecimentos sociais, e não de uma espécie de guetos temáticos. Até para que estas docas secas não se tornem uma verdadeira seca...
Ainda assim, retomo o início desta crónica, para reafirmar a satisfação pelo anúncio da intervenção urbanística na zona em questão. Até porque, a bem de todos, a finalidade da intervenção será a todos os níveis de que falei atrás, e não apenas com vista à implantação de bares e restaurantes.
...Pois não...?!