02 março 2005

13 _ ver ao longe

No seguimento das crónicas anteriores, torno a abordar a temática da arquitectura do ponto de vista energético, com a sua vertente mais tecnológica – a arquitectura bioclimática – e aquela de cariz mais filosófico e abrangente – a arquitectura ecológica.
Nos dias que correm, a arquitectura bioclimática tem uma importância e uma pertinência flagrantes. Conforme tenho afirmado nestas linhas, por entre muitos outros temas que reportam ao grande universo da arquitectura, esta vertente mais sustentável tem inúmeras características, que não será demais relembrar: logo à partida, é uma atitude com maior abrangência e mais inteligente, já que trabalha com os elementos naturais e com as suas condicionantes e características, no sentido de melhor aproveitar as suas vantagens e potencialidades e de minimizar os seus efeitos negativos ou de melhor nos fazer acomodar a eles, aumentando a qualidade de conforto e reduzindo o esforço e os consumos para o fazer. Para além disto, é uma forma de percorrer o caminho da concepção arquitectónica que, ao contrário do que os menos avisados poderão supor, se reveste de um enorme cariz tecnológico e científico. Não obstante esta sofisticação, outra das suas características é o facto de tornar um edifício mais barato, sobretudo na sua utilização, ainda que o possa também ser (dependendo das soluções construtivas e dos materiais adoptados) na sua construção. E ainda, no que será a qualidade mais interessante e universalista desta arquitectura, é uma postura que propõe e cultiva a mentalidade e a intervenção de carácter sustentável.
A sustentabilidade é a forma de satisfazermos as nossas necessidades sem comprometermos a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações vindouras. Ou seja, viver bem e deixar que todos os outros o possam vir a fazer. Que outra conduta será menos egoísta, sem recorrer à abnegação? De facto, a noção de sustentabilidade não preconiza nenhuma espécie de contenção nos desejos ou nas ambições presentes, apenas trabalha com soluções e princípios que não são autistas no seu processo, mas que se inclinam para a visão abrangente do espaço total. No fundo, lição máxima de respeito pelo próximo – neste caso a palavra próximo também mantém o seu significado cronológico, já que nos referimos aos recursos para as gerações vindouras.
Oscar Wilde, mente de eleição e personalidade de observação social contundente e de humor refinado, referia-se à consciência como “o medo de que alguém nos possa estar a observar”. Ora, no caso da sustentabilidade, e segundo o aforismo daquele autor, os causadores dos nossos possíveis problemas de consciência não existem, já que seriam a geração futura - nem na nossa tradição judaico-cristã, se pressupõe que os nossos descendentes já existam e que possam estar a presenciar as nossas vidas, daí que o caso se dilua na sua própria inexistência.
Porém, numa certa fatia da sociedade civil, cresce uma tendência para a sensibilidade a estas questões. Não se trata de um fenómeno de ordem subversiva, mas antes de uma espécie de inevitabilidade intelectual, tendo em conta o evoluir do mundo e dos seus problemas, nomeadamente os de nível ambiental. É comum o finalizar do processo de varrer a casa com um simples arremesso do lixo pela porta fora. Ninguém pensa sequer em fazer de outra forma. Mas quando o lixo nos atrapalha a entrada, por se acumular em demasia, apercebemo-nos de que teremos de passar a dar-lhe outro destino ou outra solução. E as nossas portas estão cheias de lixo... Não será necessário citar qualquer exemplo para que toda a gente saiba que o mundo se debate com problemas graves de poluição, de excesso de consumo energético, de sobre-produção e de excesso de resíduos. O cidadão comum actual (sobretudo dos meios cosmopolitas e do mundo ocidental) está ciente disso. Para se ver o tipo de preocupações e de expectativas em relação ao futuro da sociedade, nada melhor do que analisar a ficção científica produzida na sua própria época. Essa é a forma – ainda que, por vezes, mirabolante – como uma geração olha para o seu futuro, o pressente e imagina. Para dar alguns exemplos concretos, pense-se nos primeiros filmes de ficção científica (que surgiram logo com a invenção do cinema), em que o futuro e a tecnologia eram vistos como algo de positivo, que permitiria um quotidiano hiper-funcional e de contornos perfeccionistas, sendo a máquina um simpático auxiliar da vida no dia-a-dia. Depois, pense-se nos filmes de f.c., de produção americana, do período da guerra-fria, em que tudo gira à volta de invasões da Terra por alienígenas e de ameaças abjectas que pairavam sobre as pacatas populações. Pudera, o medo de uma invasão soviética era uma paranóia omnipresente. Já nos dias que correm, se virmos a maior parte da literatura e cinema de f.c. produzidos, e se excluirmos as fortíssimas tendências sócio-políticas que estão subjacentes às suas mensagens, verificamos que os cenários projectados desse futuro abstracto passam por fome, seca, guerras por posse de água, desastres à escala mundial, e outras visões de contextos pós-apocalípticos, em que esse apocalipse já não é tão vincadamente de teor bélico ou nuclear, mas antes ecológico. Em grande parte dos casos, as narrativas já decorrem, inclusivamente, em circunstâncias posteriores ao abandono do planeta Terra, sendo este considerado esgotado.
Este “à parte” cinéfilo serviu apenas para fazer compreender a visão dramática que existe, actualmente, sobre o futuro e para que, com isso, se perceba porque é que as preocupações de carácter ecológico (entre outras que visam aligeirar esse dramatismo) se espalham pelas sociedades, começando, como sempre, pelos sectores com mais e melhor acesso à informação e de maior nível cultural. Daí que, conforme disse atrás, não se possa considerar esta história de arquitectura com preocupações ecológicas e bioclimáticas como sendo subversivas, mas antes o resultado directo do panorama que tracei. Nem, tão pouco, os indivíduos que se dedicam ou interessam por estes temas são “anormais” ou excêntricos. E daí que os movimentos com estas linhas de preocupação estejam a crescer e a multiplicar-se. Exemplo de tal facto, foi o encontro de três dias que ocorreu em Lisboa, no passado mês de Dezembro, em que uma série de palestras (uma das quais tive a honra de ser convidado a apresentar) permitiu que os milhares de pessoas que passaram pela feira biológica onde este evento se inseriu pudessem tomar contacto com estes temas, e onde se pôde constatar a saudável e crescente quantidade de profissionais, instituições e organismos que trabalham neste sector. A nível da classe dos arquitectos, é salutar verificar-se que existe um número já considerável de técnicos que, mesmo que não pratiquem uma arquitectura bioclimática ou ecológica no seu pleno, debruçam-se sobre estes problemas e têm-nos em consideração na sua metodologia conceptual ou no seu estudo e investigação. A título de exemplo refira-se a existência do Centro da Terra (associação que congrega profissionais ligados à construção em terra em Portugal), do núcleo do ambiente da Ordem dos Arquitectos, da Escola Superior Gallaecia (onde são administrados cursos de arquitectura com uma forte vertente ecológica e sustentável), e de inúmeros gabinetes e profissionais liberais que lidam com estas assuntos.
Note-se que a arquitectura bioclimática ou a arquitectura ecológica não constituem um distanciamento das práticas correntes da arquitectura, nem os profissionais desta área estão menos aptos ou propícios à prática da arquitectura “convencional”. Apenas são detentores de um acréscimo de conhecimentos científicos e técnicos, numa especialidade que tem as mesmas finalidades supremas da arquitectura “convencional”: a concepção de edifícios que dêem resposta às necessidades das pessoas. Simplesmente se acrescenta algumas novas preocupações ao acto conceptual, numa perspectiva de optimização dos resultados, de economia de desempenhos e de minimização de impactos. Porque, tal como referi nas crónicas anteriores, os arquitectos têm muitos outros pontos de intervenção: artística, social, funcional, estética, etc.
Assim sendo, não será legítimo interpretar a arquitectura bioclimática e ecológica como sendo um sub-grupo da arquitectura, mas o contrário, porventura, não será, de todo, descabido, já que a arquitectura “convencional” acaba por lidar com uma parte incompleta do problema de habitar o espaço.