23 fevereiro 2005

12 _ uma cerveja no inferno

O Verão mais quente de sempre! Desde que há registos climatéricos, entenda-se. É isto que se espera para a estação quente deste ano. Ora, sabendo como a fornalha alentejana se esmera, normalmente, em jornadas de impiedade estival, o que será destas paragens por alturas de ir a banhos no ano que corre? Quem o possa, fugirá para o mais brando fervor da costa. Mas quem por cá tiver de ficar, nesta braseira implacável, com que golpes de magia se esquivará a este inferno?
O calor, entenda-se, será um mal menor, dado o cenário que se desenha no horizonte. Porque, se aliarmos às elevadas temperaturas esperadas, o estado de secura dos solos e da vegetação e a escassez de água para combater os “tradicionais” incêndios devoradores (que, neste ano, a serem menos e menores, só se for por restar pouco para arder...), então só mesmo se ele regressar numa manhã de bruma, para nos salvar daquilo de que não nos desembaraçámos. Tão longa a página, tão curta a escrita – assim, o poeta diz o Alentejo. Mas que página negra de carvão se prevê para todo o nosso país, no Verão que se avizinha...
Não, não escapei aos temas da arquitectura para vos falar de ambiente ou de gestão de recursos naturais. Apenas enquadro a paisagem e os consumíveis da civilização no contexto alargado da forma de habitar o espaço. A água, tal como a luz, o calor, o vento, a paisagem, e tudo o que “já lá estava” faz parte do suporte da forma do Homem habitar e ocupar o território, e, portanto, da arquitectura e do planeamento. Como se imagina, o grande problema do momento é o sustento primeiro da vida: a água. É da sua previsível (e já concreta) escassez que falo.
Seria muito pouco lúcido e argumentável sugerir que a máquina civilizacional poderia prever ou controlar as contrariedades ou os excessos refinados do clima. Já seria menos absurdo questionar a implicação do funcionamento dessa máquina nas grandes alterações climatéricas que ocorrem no globo (aquecimento global, efeito de estufa, chuvas ácidas, etc.). Mas não é por aí que o meu discurso segue, por ser essa uma via mais polémica e infrutífera a curto prazo (ao contrário do que a situação exige). Vou restringir-me aos possíveis métodos de combate, não por adivinhação, mas antes por prevenção de possíveis catástrofes, tal como a que se afigura eminente.
Há, no fundo, três tipos de acções que podem ser importantes e eficientes neste contexto: o primeiro, a nível da infra-estruturação de prevenção, e que se pode definir como sendo de grande escala; o segundo a nível dos procedimentos de prevenção, numa perspectiva abrangente e de carácter institucionalizado, numa escala intermédia; a terceira, a nível da reacção e da prática de carácter doméstico, de pequena escala.
No primeiro grupo, pode-se incluir uma série de intervenções no campo da concepção e construção de infra-estruturas que permitam uma gestão eficaz dos recursos hídricos. Falo, naturalmente, da criação de barragens, diques e açudes, que permitam, pelos seus correctos dimensionamento e localização, um controle das perdas de água para o mar, dos níveis freáticos (pelo abrandamento das águas do caudal, o que implica a menor erosão causada e a consequente manutenção de uma cota mais elevada do leito dos rios e, com isso, dos lençóis freáticos das bacias hidrográficas a que pertencem), das descargas de fornecimento, da evaporação (por serem mais pequenas as albufeiras, criando manchas de exposição ao sol com menor área), etc. Mas também da criação de sistemas de possível compensação de caudais, à semelhança do engenhoso sistema de transvaze que existe em Espanha, que permite a rápida correcção das falhas de água num ponto, através do fornecimento, por um ramificado sistema de canais, a partir de um outro ponto que tenha maior abundância dela. Neste grupo, o nosso costeiro país virou as costas à água, e quase tudo está por fazer.
No segundo grupo, é de referir um conjunto de práticas, a montante e a jusante, com um enquadramento mais urbanístico, e de medidas pedagógicas (que as próprias práticas também constituirão). Aqui falo da introdução de sistemas locais, de maior ou menor escala, de reciclagem e reaproveitamentos de águas residuais e pluviais. É perfeitamente viável implementar sistemas de tratamento de águas residuais domésticas (designadas por águas cinzentas) que permitam a sua “purificação” ao ponto da sua reutilização em diversas aplicações, nomeadamente, e num cenário menos sofisticado, na agricultura e lavagens (eu próprio já concebi, realizei e utilizei um destes sistemas, com resultados bastante acima do satisfatório). Num cenário mais ambicioso, poder-se-ia ir ao ponto de tratar de forma semelhante as águas negras, mas aqui joga-se com o factor cultural e psicológico das populações, com previsíveis resistências. (Para clarificar: as águas cinzentas são as águas de esgoto doméstico, com excepção das expelidas pela sanita, que são as águas negras). Há casos de sistemas deste tipo implementados a nível urbano, por vezes em escalas consideráveis, que abrangem um grande número de fogos, com uma eficiência notável e com redução de custos e encargos. Claro que, como sempre, estas soluções que, à partida parecem menos tecnológicas, por utilizarem métodos naturais e biológicos de tratamento, são mais frequentes, precisamente, em países mais desenvolvidos, tais como os Estados Unidos, a Inglaterra, o Japão, a Austrália, etc. Nesta família de acções, de escala intermédia, pode-se ainda incluir a melhor gestão de sistemas de rega e de lavagens, com redução de consumos e com utilização de águas residuais e pluviais, de forma directa ou após tratamento, tal como atrás descrito. A recolha e aproveitamento das águas pluviais é, também, um importante trunfo, quase sempre descuidado no nosso contexto. E veja-se que, apesar do meridionalismo europeu do nosso território, caem quantidades imensas de água nos nossos telhados e nos nossos campos que, pura e simplesmente, são “desperdiçadas” por seguirem directamente para os rios, sem que haja uma preocupação em recolhê-las ou em provocar e acentuar a sua infiltração nos solos.
O terceiro grupo é onde nós, os comuns cidadãos, podemos fazer a diferença. Trata-se de um conjunto de pequenas práticas quotidianas que podem tornar as nossas habitações e postos de trabalho em unidades de economia e gestão efectiva de recursos. Se, na passada crónica, me referi à questão do consumo energético nas habitações, esta questão dos consumos de água está intimamente ligada ao mesmo tipo de preocupações de gestão activa desses consumos. Para que se saiba, a título de exemplo, cerca de 50% da água consumida diariamente numa habitação corrente é utilizada pelos autoclismos. Ora, isto é um dilúvio quotidiano de água potável, sem justificação plausível. Para além da possibilidade de utilização de águas recicladas nos autoclismos (já que não faz sentido algum estar-se a deitar água potável pela sanita abaixo), pode-se reduzir a quantidade de litros do caudal de descarga. Às vezes, a solução é tão simples que parece absurda, mas, se introduzirmos, por exemplo, uma garrafa cheia de água no tanque do autoclismo, estamos a reduzir o caudal de descarga no volume dessa garrafa (0,5l ou 1l ou 1,l, conforme o tamanho do tanque e a descarga necessária). Se pouparmos 1/5 da descarga, de cada vez que carregamos no botão, isso representa uma poupança diária (e mensal, claro está) de 10% do consumo doméstico de água. Outra forma simples de reduzir o consumo, é a de controlar o fluxo das torneiras. Se pensarmos que uma pessoa gasta, em média, 38l de água a lavar os dentes (se deixar a água a correr durante os 3 minutos recomendados pelos especialistas para a duração da operação), vemos a quantidade de água que se poderá poupar ao fechar a torneira durante o processo. E imagine-se a redução de consumo se aplicarmos o mesmo princípio nos minutos do duche em que nos ensaboamos.
Estas considerações poderão parecer excessivas, ou até mesmo obsessivas para alguns. Mas, se tivermos em conta que, apesar de ainda estarmos em Fevereiro, regiões do país como Mértola ou Bragança já não tem recursos hídricos com capacidade de resposta para as necessidades dos seus habitantes, e se pensarmos nas dificuldades que por cá, de vez em quando, sentimos com a falta de água na cidade, e no cheiro a esgoto que prolifera aquando da baixa dos níveis, o meu raciocínio não parecerá tão descabido...!
Só não se percebe por que é que as medidas de fundo e de grande escala tardam em surgir, quando o problema se apresenta mais e mais grave, de ano para ano, e quando a tendência do globo é no sentido de se agravar a situação.
E já que os nossos responsáveis ainda não começaram a alertar seriamente para a necessidade de reduzir os consumos para minimizar os efeitos, que se adivinham catastróficos, da seca do Verão próximo, tomemos nós, todos nós – os principais lesados desse cenário – as escassas mas importantes medidas para essa suavização do inferno prometido.
Porque a boa mini fresquinha salva-nos da sede, mas a água dá-nos a vida.
E não nos deixeis sofrer insolação, mas livrai-nos dos incêndios. Ai mãe...