09 fevereiro 2005

11 _ o espião que veio do frio

No final do passado mês de Janeiro, mesmo a tempo de retomar esta série de crónicas, regressei da bela cidade de Tallin, na Estónia, para me constipar, no dia seguinte, na minha alegre casinha, ali à Praça do Giraldo.
Poucos se interessarão pelos percalços virais da minha saúde (a tal saudinha que por cá desejamos uns aos outros, em jeito de despedida), ou tão pouco pelas minhas deambulações pelo globo. Mas o propósito do meu relato não é uma referência à tão temida vaga de frio – que todos os anos nos espanta, apesar de “chegar” na época em que só se deveria esperar, precisamente, o frio – nem sequer para falar da enorme beleza gótico-renascentista da capital mais antiga da Europa, nossa recente parceira nestas coisas das uniões d’europa. Apenas o faço para ilustrar o que qualquer viajante menos convencional, que tenha andado por terras de fraco sol em períodos menos comuns ao turismo, como é o caso de Janeiro, já saberá por recolha empírica: Portugal é o país da Europa (leia-se, ainda assim, “um dos”) onde se passa mais frio!
Já todos ouvimos algum dos muitos estrangeiros nórdicos que por cá residem, dizer que no Inverno se pira para a terra dele, porque cá se passa um frio terrível. É certo que os potentes mecanismos de aquecimento centralizado de que dispõem os edifícios nesses países, e que, por cá, são uma compreensível (e desejável) raridade, são uma boa razão para tal suceder. Mas não será esta a principal razão de tal tragédia, que leva os sedentários humanos a migrarem como as aves, conforme as estações. A causa principal estará antes na qualidade deplorável da construção realizada por estas bandas.
Um edifício não deveria ser permeável às intempéries a ponto de tornar desconfortável a vida no seu interior. Isto passa, evidentemente, pelo grau de eficiência do sistema de isolamento térmico concebido. E olhem que nem sempre é culpa do projectista! Tentem lá dizer aos empreiteiros que não bastam as tais plaquinhas de 3 cm de esferovite na cobertura, ou que o projecto prevê isolamento no pavimento e correcção das pontes térmicas com forras específicas da estrutura e da laje porque só assim é que se obtém níveis satisfatórios de conforto térmico. Ouvirão logo algo do género “Isso não faz cá falta nenhuma! Eu já construo casas há mais de vinte anos e nunca usei cá disso!”. Obrigado! Por isso é que os outros continuam a ir para a terra deles no Inverno, e eu, um dia depois de vir, são que nem um pêro, de onde fazia -5º à hora de almoço, já me assoava cá no burgo.
Mas não se trata só de isolar para não perder. Também é preciso aproveitar os ganhos. Somos privilegiados, no contexto europeu, na quantidade, intensidade e duração de incidência da luz solar. O problema é que pouco ou nada se faz para aproveitar essa arma. Não falo dos sofisticados painéis foto-voltaicos, cujo desempenho, rendibilidade, viabilidade económica e manutenção são, ainda, a meu ver, de satisfação insípida. Falo da chamada utilização solar passiva. Ou seja, trocado por miúdos, a captação directa e natural da luz solar, e o armazenamento do calor que ela origina, na própria massa do edifício ou de elementos nele introduzidos, de forma a que resulte num aquecedor eficaz, natural, gratuito e renovável. Há inúmeras formas de o fazer - através das conhecidas estufas, associadas a elementos de recolha do calor nelas armazenado, através da radiação directa, etc. Não pretende, este artigo, ser um manual de arquitectura solar passiva, mas alertar para a importância deste facto, que lida com aspectos importantíssimos da construção, quer ao nível da responsabilidade ecológica, quer ao da eficiência energética, ou, inclusivamente (regozijo geral), ao da economia de um edifício.
A esmagadora maioria da energia consumida por um edifício é dispendida na sua utilização, sendo os gastos energéticos na sua construção, no fabrico dos materiais e em todos os outros pontos de consumo, bastante menos significativos. Como tal, será fácil de entender o quanto se pode economizar (financeira e ecologicamente) com uma boa concepção e execução de um edifício. Basta pensar no frenesim de aquecedores e ar-condicionado, que se vive neste país de clima classificado como temperado e que desapareceria.
Saberão já, por estas horas, que sou um forte defensor da arquitectura bio-climática e ecológica, mas não enquadro a actividade da arquitectura como estando ao serviço de regras destas correntes. Sim: a arquitectura bio-climática e ecológica é importante e até fundamental, mas não se pode esquecer que o papel de um arquitecto passa também por outros pontos - de intervenção social, artística, funcional, etc. A obsessão pelas regras de uma qualquer corrente é empobrecedora, porque retira a visão global e lúcida do objecto, e porque se esquiva à razão. Tal como um pintor que vive obcecado pelo detalhe e que, mercê de tal focalização, se esquece de se afastar da tela, de quando em vez, para tomar consciência do todo, caindo, assim, no risco de ter um resultado final cheio de pormenores belíssimos, mas completamente desproporcionado.
Porém, as preocupações inerentes à concepção bio-climática de um edifício deveriam fazer parte do leque de variáveis com que se esboça o objecto arquitectónico. Infelizmente, não sendo prática corrente no nosso país, isto acontece ainda menos vezes do que as verdadeiras vagas de frio, seja por falta de sensibilização dos projectistas e/ou dos promotores, seja por deficiência de conhecimentos técnicos (pouco ou nada analisados na maioria das escolas de arquitectura e pouco disponíveis), seja apenas para evitar todo o trabalho acrescido que dá fazer um projecto com esses cuidados – porque, obviamente, se se acrescenta uma nova variável à equação, ela fica mais difícil de resolver.
Na passada crónica falava da obrigatoriedade da utilização de sistemas solares para aquecimento de águas domésticas nos novos edifícios. É (será), de facto, a única real presença da arquitectura energeticamente inteligente nos nossos dias. Apesar de ser um passo importante, é preocupante que seja uma imposição da legislação, e não uma tomada de consciência da sociedade, o que origina estas intervenções. Porque, se em outros assuntos é difícil de “convencer” as pessoas de que têm de ser responsáveis a vários níveis, neste caso há um factor que joga a favor de todos. A arquitectura bio-climática torna um edifício, na sua utilização, mais económico do que um que tenha sido concebido e construído sem quaisquer preocupações desta índole! E essa vantagem económica é exponencial, com o passar do tempo!
Por isso, tomemos consciência de que todos nos queixamos da fraca qualidade de conforto que temos no interior dos nossos edifícios, e mentalizemo-nos de que não podemos continuar a construir da mesma forma, legitimados por um falso e recente empirismo, sob pena de perpetuarmos essa falta de qualidade.
Construa-se melhor! Como deve ser! E nem é para que os nórdicos deixem de migrar. É para ver se me passa esta constipação...
Saudinha!