21 julho 2004

08 _ um toque de rústico II

Foi há três semanas que, numa crónica que gerou alguma polémica, manifestei o meu pouco apreço por aquilo que julgo ser uma abordagem pouco interessante e honesta da arquitectura e da construção. Num sentido mais lato, estendo esta análise a toda a actividade criativa e de intervenção social.
Falava, nesse breve texto, da repetição linear e formalista de soluções anacrónicas ou de cariz próprio e divergente do contexto em que essa mimese é processada. Trocado por miúdos, falo da inconsequente e desprestigiante imitação.
A esta empobrecedora atitude de estagnação criativa e intelectual, pertence também a abordagem preconceituosa do exercício de projectar. Leia-se “preconceituosa” no seu sentido etimológico - que é precedido de um conceito. Ou seja: tal como a pescada, que antes de o ser já o era.
É prática corrente proceder-se a um esquema mental (que precede o frenesim gráfico dos desenhos de concepção de um projecto) que remete todo o processo criativo para uma série de conceitos (fundamentalmente de carácter formalista) que podem pôr em causa a legitimidade intelectual do resultado final, enquanto objecto arquitectónico - os tais pré-conceitos. Que fique bem claro que a existência de conceitos fortes num processo criativo é salutar, desde que o acompanhe e dele surja, em lugar de o preceder e condicionar.
Para se perceber como esta atitude pode ser redutora, pense-se em dois compositores de música: Um escreve, invariavelmente, para um quarteto de cordas - dois violinos (certamente não os de Chopin), uma viola e um violoncelo, por exemplo. O outro escreve a música que melhor ilustra e exprime o sentimento que quer transmitir - será essa tentativa de transmitir esse sentimento que irá solicitar a intervenção de um clarinete, de um obué, de um fagote, de uma trompa ou de qualquer outro instrumento. Veja-se bem a diferença na potencial riqueza final de cada uma das peças. É evidente que se pode fazer muito com muito pouco - sendo até um exercício bastante interessante (Mies van der Rohe mostrou-nos isso como ninguém) - mas esse pouco tem de ser intencional, e não fruto de uma restrição de recursos intelectuais e linguísticos, antes mesmo de iniciado o processo - a depuração como discurso e não como gaguez!
Será por demais aceitável que alguém que não está familiarizado com as exigências e responsabilidades do pensamento arquitectónico se sinta imediatamente inundado de imagens estereotipadas, assim que ouve pronunciar a palavra casa. E será (pelo menos na esmagadora maioria dos casos) algo do género: uma planta rectangular; um telhado de duas águas; umas janelinhas aos quadradinhos e uma porta de entrada. Tudo o resto virá da quantidade de revistas que se folheia na espera do consultório, das visitas que se faz aos amigos que moram no estrangeiro, ou dos filmes de Hollywood que se devora, por entre telenovelas mexicanas.
Muito poucos formarão outra imagem imediata ou, pior do que isso, estarão sequer disponíveis para ponderar sobre a falibilidade da que elegeram.
A questão que se coloca é a de que, tal como a cada pessoa corresponde uma personalidade, a cada casa (ou edifício) corresponde também uma identidade própria. E cada local oferece uma realidade, que não pode ser descurada no gizar das ideias basilares da intervenção. E cada personalidade de cada habitante de cada casa requer uma diferente identidade da sua casa. E uma série de variáveis, que fazem com que não seja possível (nem desejável) traçar linhas generalizantes, pró-dogmáticas, requerem uma atitude e uma abordagem específicas, no sentido de dar a resposta adequada ao problema.
Porque a arte difere da matemática por não nos dar a conhecer as fórmulas; porque, no fundo, tal como na matemática, na arte põe-se-nos um problema, em que temos de equacionar as variáveis e proceder aos cálculos, sob forma de acto criativo. Só que, ao contrário da matemática, não existe apenas uma resposta possível para cada problema.
Por isso é fundamental que o cliente confie no seu arquitecto, permitindo-lhe a provocação, ao ser confrontado, por proposta deste, com soluções de “intervenção”, e não de “acomodação”. Assim como é fundamental que o arquitecto confie no seu cliente, para poder realmente vir a conhecer as tais variáveis da equação que se prendem com a identidade do futuro utilizador do objecto a conceber.
O processo criativo, só assim será real, lúcido e honesto.
Porque sem lucidez não há verdadeiro conhecimento.
Porque sem conhecimento não há liberdade.
Porque sem liberdade não há arte.
Porque sem arte há um mundo dorido.