30 junho 2004

06 _ um toque rústico

Com alguma frequência, os clientes (ou candidatos a tal) que me entram pelo atelier (ateliê - segundo as novas regras ortográficas), trazem um desejo ardente de virem a possuir “uma casa rústica”. É sempre difícil de adivinhar o que é que será esta coisa do rústico, mas tenho vindo a constatar que, na maioria dos casos, a expressão “rústico” está para o Português de classe média, como para o turista americano estará o “very typical” (sem a extrovertida interjeição de espanto proferida por este último - “oooooohhh!”).
É inegável que os objectos de cariz rústico têm um charme especial e uma beleza muito própria. Mas é isso mesmo que se passa - são objectos muito especiais e, sobretudo, próprios. “A busca de algo não resulta na sua descoberta aparente, mas na compreensão de todas as partes que se unem para lhe dar existência.” É assim que Artur Quaayayp, no seu poema “Rostos da Vila”, nos relembra da densidade necessária à veracidade de um objecto - talvez aquilo que, nos humanos, apelidamos de alma.
Na contemplação da beleza, o olhar deve ultrapassar a forma, e perceber que a real beleza está na história por detrás de cada pormenor. Como a beleza de um beijo não reside no prazer imediato desse beijo, mas na sua conquista.
Nos tempos em que as coisas eram rústicas, os processos de fabrico dessas mesmas coisas eram muito primários, em comparação com os meios actuais. Era daí que resultava o conjunto de imperfeições e pormenores únicos que faziam de uma peça algo de rústico.
Hoje em dia, a tecnologia disponível permite um grau de perfeição e de rigor que só o futuro menosprezará. Como tal, apenas de forma falsa, se poderá introduzir peças rústicas na realidade contemporânea (excepção feita a alguns nichos da indústria, que continuam, por opção, a utilizar técnicas rudimentares e ancestrais de produção).
É que tudo tem uma razão de ser. Por exemplo: se as janelas de outrora, feitas em madeira, tinham vidrinhos pequenos, resultando num quadriculado de ripinhas, era, entre outras razões, porque a madeira corre o risco de empenar, e, ao introduzir a quadrícula, está-se a introduzir uma maior resistência a esta tendência para empenar. Que sentido fará, hoje em dia, construir janelas em alumínio ou PVC (materiais com muito menor risco de empenarem), colocar-lhes um vidro único (duplo) e, depois, introduzir-lhe umas inúteis tiras plásticas entre os vidros, apenas para imitar as antigas e lhe dar aquele aspecto rústico?
Ou, então, para quê construir chaminés de dimensões generosas, numa casa onde já não se fuma carnes?
Quanto às imperfeições dos materiais: se, por exemplo, uma tijoleira tinha cores variáveis e alguma irregularidade na sua superfície, era porque era cozida em fornos a lenha e de modo rudimentar. Que raio de ideia teve quem resolveu criar mosaicos vidrados, de construção ultra-sitematizada e industrializada, com as mesmas nuances de cor e textura, que por vezes são tão difíceis de obter com ar credível, que até encarecem o produto?
Torno a dizer: tudo tem (tinha) uma razão de ser. Se as casas tinham socos, alizares, beirados e toda uma série de elementos (cuja beleza será inegável), é porque esses elementos faziam parte de uma lógica construtiva, de uma série de procedimentos para optimizar o desempenho dos materiais e a sua durabilidade. A sua recriação de forma gratuita, por questões puramente estéticas, é absurda e desprestigiante, quer para a sanidade artistico-intelectual de uma sociedade (porque não acompanha a realidade técnica e artística), quer para a obtenção de bons resultados técnicos no produto final (porque tenta recriar situações anacrónicas da técnica e materiais utilizados para o fazer), quer, ainda, para a satisfação de quem o deseja (porque nunca será possível reproduzir fielmente algo proveniente de um contexto totalmente diferente).
Muitas vezes é o próprio mercado de materiais a propor-nos soluções de imitação. Têm sempre um nome que iguala o refinado ridículo do próprio produto, do tipo “antique” ou “série vintage”. Dos mosaicos a imitar tijoleira tradicional (por vezes até com lascas nas arestas), às vigas de betão revestidas a madeira, passando pelas torneiras a imitar os modelos arcaicos - por vezes até imitam as bocas de água do tempo em que não existia água canalizada e tudo se baseava na bomba de manivela - tudo está ao nosso dispor, para que possamos ter uma série de objectos com uma cara e outro coração.
Isto fará tanto sentido como agarrar no motor de um Fórmula 1 e colocá-lo na carroceria de um “boca de sapo”. Simplesmente não pode resultar, e oferece-nos o ridículo em generosas doses.
Deixemo-nos de romantismos e saibamos amar o que os nossos dias nos oferecem. Será essa a diferença entre sentirmo-nos vivos e parte desta nave ou ultrapassados e ocupantes do seu reboque.
Não está em causa o aproveitamento de objectos (arquitectónicos ou outros) antigos - que muito saúdo, desde que recuperados na íntegra, para constituírem real testemunho de técnicas e soluções de uma época. Está em causa a produção actual de objectos que utilizam técnicas e soluções contemporâneas na imitação de estéticas obsoletas. Está, portanto em causa, a verdade dos objectos e a sua honestidade. E a atitude que poderá combater essa tendência, tem de partir dos técnicos - arquitectos e designers, na circunstância - que têm de saber propor soluções que integrem o design actual, e que o dignifiquem.
Para que se possa sentir a veracidade dos objectos.
Para que o seu charme exista, de facto, e não seja apenas algo que se desfaz com a nitidez.
Para que, por detrás de uma bela cara, esteja um grande coração.

*Esta crónica surge de uma velha conversa com o arqº João Portalete - a quem fica o agradecimento.