23 junho 2004

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A propósito do conceito do belo, algumas considerações merecem ainda referência. Na crónica anterior, referi-me ao carácter circunstancial desse conceito, num contexto fundamentalmente cronológico. Mas se defendi a inovação como elemento indissociável da beleza de um objecto de design, é preciso também referir a situação geográfica e cultural, bem como todo o contexto técnico e tecnológico, no rol de variáveis a equacionar.
É importante que se entenda que esta história de inovar não constitui um processo de ruptura nem uma insolente provocação à respeitosa e respeitável tradição cultural e técnica de um local e de uma civilização.
Mas estamos sempre a tentar resolver o mesmo problema com uma constante alteração das tais variáveis. Logo, nunca a solução poderia ser a mesma.
Senão veja-se: tal como o exemplo que utilizei na semana passada, hoje em dia vamos de Lisboa a Milão em menos de três horas. Poder-se-á, então, continuar a falar de regionalismo? Claro que sim (e não tem nada a ver com o lado político, muito explorado ultimamente, do termo), desde que se entenda esse regionalismo como algo de adquirido (clima, tipo de solos, latitude e incidência solar, enquadramento geográfico, etc.). Porque o lado cultural do regionalismo tende para a fusão. Nem vale a pena tentar contrariar, porque seria remar contra a maré. Veja-se as tendências actuais da música, a título de exemplo – fado com ritmos electrónicos, cante alentejano com ritmos latinos, jazz com rock, música clássica europeia com música clássica indiana e oriental – um admirável mundo novo, que nos foi trazido pela tecnologia, e que nos permite estar em todo o lado quase em simultâneo. Pois – a tal história de Aldeia Global. Houve tempos em que Marco Pólo nos trouxe os mais fabulosos relatos de civilizações distantes e muito diferentes da nossa. Agora já podemos ver em directo qualquer acontecimento que ocorre no outro lado do globo. Há estreias, em simultâneo, em todo o planeta, de filmes e de outros produtos culturais, que outrora eram exclusivos da própria cultura que lhes dava berço.
Sejamos francos: a cultura de um povo – que alguns teimam em estagnar, como se fosse algo de intocável, é o resultado de uma eterna e constante adição, absorção e adaptação de elementos de culturas que se entrecruzaram ou se fundiram. (Ninguém por aí acha mesmo que o tradicional monte alentejano nasceu do nada, em pleno Alentejo, pois não? Aos que assim pensam, sugiro-vos uma voltinha pelo norte de Marrocos, uma breve visita a Espanha, uns pozinhos de Romanos, umas ervas Visigóticas e uns outros tantos ingredientes daqui e dali, de todas as culturas que por cá passaram e dos locais por onde os nossos avós andaram). É por isso que os apelos à manutenção das tradições culturais só fazem sentido se essa manutenção for vista como algo de dinâmico e adaptado às realidades, e não como uma estéril e estagnante repetição de modelos recolhidos de uma época escolhida (porquê aquela?) por romantismos subjectivos e muito pouco universalistas.
O problema é que nós, condicionados pela nossa relação irresoluta com a morte, achamos que a época em que vivemos congrega a sublimação de toda a evolução adquirida. Para a frente tudo terá de ficar como nós o deixarmos. A evolução é, assim, vista como algo de perverso que nos esbofeteia com a indignação da finitude humana.
É óbvio que todos temos muito orgulho na nossa própria cultura, e que a queremos preservar. Mas será que este preservar quer dizer musealizar? Veja-se o perturbante exemplo de Monsaraz: um local profundamente encantador, cujo charme epidérmico contrasta com o lento e avançado processo de putrefacção do seu âmago. É a mumificação da história.
O processo de estagnação do património só traz o aprofundamento do fosso entre o passado e o presente, constituindo, assim, uma barreira à continuidade e, consequentemente, uma negação à vitalidade e à potencialidade desse mesmo passado, recusando a sua validade no presente. A constante evolução, ao invés, afirma a legitimidade desse passado, ao tomá-lo como sólido ponto de partida para a construção de presentes e, consequentemente, de futuros.
No ano 3019, quando a humanidade já não andar por aqui, Évora será visitada por extraterrestres (vá lá… há coisas menos prováveis…). Quando saírem da sua nave, vão observar a cidade, tentando compreender a civilização que a habitava. E vão escrever, no seu diário de bordo, algo do género:
- Planeta azul, cidade de Évora, ano de 3019.
Esta cidade é magnífica, com uma série de testemunhos históricos que pressupõem a existência de várias culturas, ao longo dos tempos. Encontramos várias camadas sobrepostas, relativas a diversas ocupações, que sugerem civilizações semelhantes a outras que encontrámos noutros pontos deste planeta, sobretudo no resto desta península, em Roma e no território apelidado de Magreb. Pode-se observar magníficos exemplos da mestria construtiva, que mostram a fantástica evolução técnica, artística e social dos seus habitantes. Porém, algures durante o que os terrestres chamavam de séc. XX, deixou de haver essa evolução (ao contrário do que se verifica noutros locais do planeta), e passou-se a utilizar um mesmo modelo e técnica para a expansão de todo o território. Não se compreende as razões que levaram uma população com uma tradição de constante evolução muito marcada – que deu origem a tão notáveis exemplos – a prescindir desta busca de novas soluções, e a cair numa estagnação técnica e artística.
Será, isto, diferente da realidade? Não espantará já os mais por dentro das coisas d’arte, esta sequência de extraordinários exemplos de épocas e culturas tão diversas como a Romana, a Magrebina, a Românica, a Gótica, a Renascentista, a Barroca, e por aí fora, até nos atolarmos no reino das infindáveis repetições do Monte-Alentejano-versão-Casa-Cláudia? Olhemos bem à nossa volta, e veremos que, salvo o extraordinário exemplo do Bairro da Malagueira (vá, batam-me lá) e de mais uma ou duas pequenas excepções, nada de realmente novo foi feito nesta cidade nos últimos anos (leia-se décadas). Mas vejam que (a propósito do bairro citado) nem interessa tanto se se gosta da Malagueira ou não. Interessa que é uma intervenção que constitui uma interpretação inovadora e progressista da realidade eborense, servindo (mesmo que, eventualmente, fosse pelos ensinamentos que se colhem de um mau exemplo), para dar um passo em frente e participar na evolução.
Alguns há que falam em descaracterização da cidade ao, por exemplo, se trocar os velhos candeeiros públicos (eles próprios já a imitarem as velhas lamparinas a azeite) por outros de traça moderna. Seriam os crono-homólogos desses mensageiros da boa velha a, em tempos idos, se insurgirem contra a introdução de luz eléctrica nos espaços públicos – porque retiravam o tal carácter tradicional e mais o aqui d’el rei do costume.
É sobejamente conhecida a frase “isto no meu tempo é que era”. Faço de novo um apelo a algum psicólogo que por aí ande, que possa explicar que esse é um fenómeno de associação emocional de uma conjuntura social e universal a uma condição pessoal. É óbvio que as coisas que pertencem ao tempo em que se tinha 16 anos parecem sempre melhores aos homens de 60. Não por serem realmente melhores, mas por neles estarem inconscientemente associadas à vitalidade e jovialidade de que gozavam, há 44 anos atrás.
Um dos mais difíceis exercícios de postura na vida em sociedade será a constante lucidez social de que devemos gozar constantemente, e que não deve ser manipulada por romantismos pessoais. Perceber o que deverá ser o caminho da sociedade, sem ceder a caprichos próprios e a lirismos saudosistas.
Por isso, sem menosprezar a importância do papel dos conservadores (no refrear de investidas histéricas, para impedir os extremismos), impõe-se um grito pelo progresso e pela inovação, sabendo que só assim estamos a respeitar o legado dos nossos antepassados, já que este se constitui de sucessivas inovações e progressos, ao longo de toda a história. Não se trata de romper com o que eles fizeram. Trata-se de continuar a sua obra.
A tradição não é a forma, nem a solução, nem a técnica. É a atitude. E a atitude do ser humano na Terra tem sido a experimentação, o arrojo, a inovação, o progresso. Continuar por esse caminho é a única forma de manter viva a tradição.