16 junho 2004

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De regresso ao papel do arquitecto no processo construtivo e de criação dos tais cenários de vida, a que aludi anteriormente, debrucemo-nos hoje sobre uma das vertentes (porventura a mais volátil) da fase criativa do trabalho daqueles profissionais. Esta fase poder-se-á conotar com a génese de todo o processo subsequente.
Mas não se julgue que o processo criativo constitui uma espécie de histeria idealista do artista. (Antes de mais relembro que, tal como referi numa crónica passada, o trabalho é, a meu ver, composto dos tais 20% de inspiração e 80% de transpiração).
Assim que se dá início ao processo intelectual e artístico que precede e acompanha um projecto de arquitectura, acontece, ao contrário do que se passa com outras artes “mais puras” (tais como a pintura, a escultura, a música, etc.), um fenómeno de espartilhamento da explosão criativa: há uma série de condicionantes – de ordem legal, jurídica, técnica, cultural e em tudo circunstancial – que proporcionam, ao arquitecto, um campo de acção bem mais restrito daquilo que se pode e tende a julgar. Basta pensar que um projecto, ao contrário de um quadro, por exemplo e na maioria dos casos, é para um cliente específico, que já tem uma noção muito precisa (por vezes até demasiado formalista) do que pretende como objecto final. Mesmo nos casos em que isto possa não acontecer (como nas obras públicas, ou nos clientes mais arrojados), há sempre os planos municipais, os regulamentos de construção, as condicionantes técnicas, os impiedosos limites orçamentais, as restrições de oferta do mercado (nos materiais e na mão de obra), as características morfológicas e paisagísticas da área de intervenção, e toda uma série de limites máximos ou mínimos que se sobrepõem à magia da folha branca por riscar.
Uma vez conhecidos os ingredientes, pode o cozinheiro dar início à confecção.
É aí que entra em jogo o talento e a criatividade do artista/técnico – artista para saber refinar a exequibilidade da peça sem que ela perca o poder de fascínio em prol da simplificação de execução; técnico para saber dar solidez abrangente aos mais arrojados desafios criativos.
Como bem nos ensina a forma do próprio planeta em que vivemos, pode partir-se de um mesmo local em qualquer direcção e chegar-se a um qualquer outro ponto, tomando um qualquer rumo. Como decidir, então, qual a estrada a tomar? Ora, se é verdade que todas as condicionantes atrás referidas têm um carácter restritivo, também se pode dizer que, ao estreitar o ângulo de visão, elas podem fornecer pistas e desafios que contribuem para o sucesso das opções escolhidas. Um pouco como a técnica do Aikido, em que a força do adversário se converte em poder próprio. Portanto, uma situação desfavorável, pode ser um bom ponto de partida para uma abordagem interessante. Muitos casos há em que, mercê de contextos (físicos, geográficos, culturais, legais, etc) constrangedores, bons projectos e obras são conseguidos – já que estamos em tempo de bola, veja-se o magnífico exemplo do estádio de Braga, com uma brilhante adaptação a um contexto que, a priori, se revela, no mínimo, diferente do normal e do ideal para um estádio de futebol.
Porém, mesmo depois de tudo isto, sobrevém inevitavelmente o íntimo do arquitecto. É ele que, condicionado e condimentado por todos estes ingredientes, vai dar o corpo à alma concebida. Cuore, cazzo, cervello – (ccc) ensinaram-me na faculdade de arquitectura de Milão – são os três ingredientes indissociáveis à actividade de um criador, de um arquitecto em particular. Coração, cérebro, coragem (utilizando um eufemismo, mais pudico do que o termo aplicado pela franqueza dos italianos) aludem às três componentes humanas a utilizar. Ou, se se quiser, a paixão do acto criativo, associada à coragem de grandes voos, consolidada pela inteligência que permitirá o bom termo desses impulsos.
Mas é claro que toda esta subjectividade permite, ainda e saudavelmente, vários resultados a partir dos mesmos pressupostos. Toda a “conspiração” intelectual produzida pelo arquitecto está, em último grau, dependente de um derradeiro critério, de ordem estética: o conceito do belo.
É aqui que a porca torce o rabo! Que história é esta do belo? O que é que faz de uma coisa algo de belo e de outra algo que não o é considerado?
Ora, todos nós sabemos que o conceito do belo se alterou ao longo dos tempos – veja-se as pinturas das senhoras belas do período barroco (longe de qualquer nutricionista) e, em seguida, pense-se em quantas modelos da actualidade se poderia fazer apenas com a camada adiposa de uma dessas senhoras…
Como esse próprio conceito de belo é tão flutuante (quase paradoxal, no seu evoluir), será que se pode realmente afirmar que algo é belo? Sê-lo-á se, no seu tempo e cultura, estiver de acordo com os cânones e parâmetros vigentes. Mas esses parâmetros estão em constante mutação milimétrica (ou não sofreriam grandes alterações, quando os observamos ao longo dos tempos) – tal como as modas (de vestuário, de penteados, de comportamentos, de inclinações sociais, etc.). E essas modas são inventadas por experimentalistas, como não podia deixar de ser (se hoje vamos de Lisboa a Milão em menos de três horas, é porque algum “maluquinho” se lembrou que o homem podia voar – e foi feito). São esses visionários que, numa generosa epopeia de procura, nos facultam novos mundos com, claro está, novos belos.
Nesse sentido, apenas poderemos considerar como belo o que está de acordo com a própria época. Mas se, como foi dito, a digna intervenção artística visa a constante actualização do conceito de belo, apenas poderemos, então, considerar como belo aquilo que foge (ainda que milimetricamente) da intelectual e artisticamente pobre repetição do existente. Ou seja: apenas será belo o que inova.
Todos os desejos de possuir objectos de beleza instituída são compreensíveis. Sobretudo quando são manifestados por pessoas sem compromissos para com as coisas d’arte deste mundo (se é que alguém se pode esquivar a esta responsabilidade). Mas eles também são estagnantes e desprovidos de contributo para a evolução da humanidade e da civilização a que pertencemos.
A arquitectura fornece os cenários para a vida. Sabendo que a vida quotidiana está em constante mutação e evolução, caberá à arquitectura (e ao design, em sentido lato), não só acompanhar essa evolução, mas precedê-la, dando-lhe espaço para acontecer.
Por isso, só pode ser condenável a repetição de arquétipos e a multiplicação de fenómenos semelhantes.
Por isso só pode ser louvável a inovação e a busca de novos conceitos e soluções.
Tudo para o mesmo eterno problema, que apenas se nos apresenta de forma diversa, todos os dias – o da vida.