09 junho 2004

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O João era um rapaz, como tantos outros, que morava em Chora-que-logo-bebes. Mas, contrariamente aos seus conterrâneos, os chora-que-logo-bebenses, o João achou que o muro que circundava a sua aldeia era, ao contrário das crenças predominantes, transponível. Leu com arrojo o cartaz que topejava a sólida barreira, proibindo a entrada no bosque por ela delimitado a quem não andasse espantado por existir, e lançou-se para o outro lado.
O João - o sem medo - cuja história nos foi contada pela fértil imaginação do José – o Gomes Ferreira - deve ter ficado do outro lado do muro, deixando os chora-que-logo-bebenses a enxugar os olhos, por entre críticas rancorosas à situação em que vivem (e da qual se consideram infelizes vítimas injustiçadas) e manobras de evasão ao eficaz combate da perpetuação dessa situação (que comodamente praticam).
Bem sei que deveria estar, tal como havia anunciado para as primeiras edições destas crónicas, a tentar clarificar o papel do arquitecto no contexto da concepção e construção de espaços e objectos urbanos e arquitectónicos. Muito há, ainda, para dizer sobre este assunto, antes de passar a outras não menos importantes considerações sobre as questões da arquitectura. Mas permitam-me um breve parentesis, para uma reflexão sobre um tema emergente, que tem dominado as atenções, ao longo dos últimos dias. Refiro-me à questão das alterações do preço do petróleo, e a todo o burburinho, pânico e indignação resultantes de situações desta índole.
Desde há uma eternidade (demasiado perigosa para a sustentabilidade deste planeta) que a humanidade baseia toda a sua actividade (há que dizê-lo assim) num único produto – o petróleo. Basear a actividade de toda uma espécie num só produto (e seus derivados), de quantidades finitas, parece muito pouco inteligente. Quando constatamos que esse produto, nas suas diferentes fases - extracção, transformação, utilização, decomposição e existência residual - constitui uma fonte (aí sim, quase inesgotável) de poluição, esta opção, que apelidei de pouco inteligente, ganha o estatuto de aberração intelectual.
Mas reportemo-nos ao universo da construção, até porque é desses assuntos que aqui se trata. A esmagadora maioria dos produtos utilizados na construção contemporânea é descendente (nalgum grau) do petróleo. Sejam os produtos dele directamente resultantes (betumes, tintas, vernizes, colas, etc), sejam os que utilizam a energia por ele produzida, na sua fabricação (cimento, tijolos cozidos, pré-fabricados, etc), sejam, ainda, os que são transportados e aplicados por veículos e máquinas que funcionam com combustíveis derivados do petróleo, pode dizer-se que o ouro negro está omnipresente, de forma algo kafkiana, na totalidade da construção convencional contemporânea.
Ora, tal como alguns dos meus leitores terão tido a oportunidade de constatar, ao visitar a exposição e as conferências que tive o prazer de organizar em Évora, no passado mês de Maio (que tinha o título de “A terra na arquitectura”, foi promovida pela Associação Centro da Terra e teve o apoio do Diário do Sul, entre outros), existe uma coisa, a que se chama construção em terra. A construção em terra - sobre a qual tive a oportunidade de escrever alguns artigos neste D. Quixote, a propósito da referida exposição - não é mais do que a utilização de terra crua (não cozida nem transformada) em edifícios e estruturas urbanas, e que permite praticamente qualquer solução arquitectónica, requerendo apenas bons conhecimentos técnicos da equipa (projectistas e construtores) interveniente. É utilizada desde há milénios e está entre as primeiras soluções da humanidade para a questão da habitação e do abrigo. Por utilizar o material que está disponível no próprio local da construção, é eliminada do processo uma quantidade considerável de energia requerida e de poluição produzida.
Senão, veja-se: não se fabrica o material que se vai utilizar na construção das paredes, porque ele já existe; não se transporta esse mesmo material, porque ele já lá está; não se utiliza produtos industriais no isolamento, porque a terra já cumpre essa função; não se produz resíduos de obra, porque a terra sobrante fica onde estava; não se cria estruturas poluentes, porque as paredes em terra são recicláveis, podendo utilizar-se a mesma terra na construção de inúmeros edifícios; não se utiliza maquinaria (poluente no seu funcionamento, assim como na sua produção) na climatização, uma vez que as paredes em terra desempenham esse papel; não se promove a desenfreada construção/demolição/construção de edifícios, uma vez que a terra tem uma duração incrivelmente superior à dos materiais industriais, nomeadamente à do betão. Avalie-se este panorama e constate-se a avassaladora redução de gastos energéticos e diminuição de produção de poluição que constitui a construção em terra – a montante, na fabricação e transporte de materiais; a jusante, na aplicação, desempenho, durabilidade e reciclagem desses mesmos materiais.
Por tudo isto, percebe-se facilmente que por aí haja alguns senhores que se enervem bastante com esta história da construção em terra. Se vos disser que um edifício em terra pode ser ainda mais económico (tanto na sua construção como na sua manutenção a longo prazo) do que um edifício dito convencional, então vão perceber que esses senhores chegarão a espumar dos cantos da boca, cada vez que ouvem falar de argila (será na sequência pós-traumática dessas emanações de líquidos bocais, que eles vêm a público dizer barbaridades, como, por exemplo, que caiu tudo no terramoto de Vila-Nova-de-Não-sei-onde porque era tudo construído em terra, sem terem a dignidade de ressalvarem que essa mesma vila tinha sido construída há centenas de anos e resistira, ao longo dos tempos, a dezenas de terramotos sem ter caído, por vezes em situações em que os edifícios em betão caíram). Há interesses demasiado grandes a ser protegidos. E não há nada como espalhar boatos pelos meandros do compreensível desconhecimento dos comuns mortais, no que diz respeito a estas matérias, para dissuadir esses nossos semelhantes de optarem por soluções passíveis de danificar monopólios consolidados - vejam bem, senhores, que até se diz por aí que nas casas em taipa há ratos nas paredes... (terá sido nisso que pensaram os membros da casa real quando construíram, em pleno território de pedra calcária, um palácio magnífico - o de Vila Viçosa – todo em taipa?
O João do José, se vivesse no nosso Chora-que-logo-bebes, já se teria fartado deste trilho, e teria deixado o rebanho adormecido, para ver o que é que podia fazer pela vidinha.
Eu cá, só não percebo este aparente (digam-me, se estiver errado) marasmo paradoxal: ninguém está contente com o mundo em que vivemos, mas ninguém quer fazer nada de forma diferente da já usada pelos outros. Poder-se-á, assim, sonhar com uma real evolução? Que futuro esperar? Por onde andas, João?
Vivemos um momento especial, em que a União Europeia sofreu o maior alargamento de sempre e em que estão à porta as eleições para o Parlamento Europeu. Politiquices à parte (que isso para aqui não interessa), este é um momento crucial para que a Europa, que pomposamente se auto-designa por “velho continente”, ganhe a noção real de identidade e de personalidade própria (passe a redundância) em certas matérias. Ao contrário dos continentes americano, asiático e oceânico, a Europa não tem grandes quantidades de petróleo; ao contrário do continente africano, a Europa não tem uma impossibilidade económica e estrutural de investir na investigação, ciência e experimentação. A Europa é a pátria de mentes e inventores tão fabulosos e sofisticados como Leonardo, Volta, Curie, Newton e tantos outros. Porque não investir na investigação e experimentação de sistemas energéticos alternativos? - ao nível da construção, como da energia propriamente dita. Há quem o faça, muitas vezes às suas próprias custas.
Das questões da ecologia na construção falar-se-á em futuras crónicas.
Para já fica a referência ao magnífico sistema de construção em terra, de que tornarei, também, a falar.
Para já fica esta solicitação ao arrojo europeu, absorvido, em parte, pela vanguarda americana.
Para já fica este apelo: leva-nos contigo, João!