02 junho 2004

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Na tentativa de clarificar o papel do arquitecto no processo que leva à construção de um objecto arquitectónico ou urbanístico, é fundamental compreender-se o campo de acção destes profissionais.
De facto, e graças ao famigerado 73 / 73 (número do artigo que define quem pode subescrever projectos de arquitectura, e quais as habilitações necessárias para o fazer), muitos outros profissionais, para além dos arquitectos, podem entregar (legitimamente e sem recurso às tão lusitanas “variantes às estradas principais”) projectos de arquitectura, desde que estes não correspondam a obras a ter lugar em zonas protegidas, ou uma ou duas outras escassas excepções, que mais não fazem do que ridicularizar a regra.
É claro que há ainda quem prefira o tão prendado “endireita” do fundo da aldeia do que o tal do senhor doutor da vila - sobretudo quando a maleita é maior do que a lucidez cultural do padecente. Mas não deveria ser aquela entidade que zela pelo bem estar e harmonia da sociedade (vulgo Estado) a definir quem tem a legitimidade técnica, cultural e académica para desempenhar uma função específica dentro dessa mesma organização social?
De facto o Estado fá-lo. Pena é que encare esta história de “fazer casinhas” como uma brincadeira sem males daí resultantes. (psst: haverá por aí algum psicólogo que posse informar esses senhores de que muitas das patologias contemporâneas têm origem no caos urbano em que nos movemos?).
De rir é o facto de a lei obrigar a que, em certas situações, como se disse atrás, os projectos tenham de ser da autoria de arquitectos. Então mas afinal um arquitecto sempre está mais apto a fazer arquitectura do que um não-arquitecto? (os menos néscios que me perdoem a evidência da retórica). E então só em certas situações é que é necessário acautelar que as coisas sejam feitas por técnicos realmente aptos? Olha... ‘tá boa!
Sejamos sérios, senhores! No número zero referi-me ao arquitecto como fazedor de cenários de vida. Não brinquemos com os cenários, porque os actores merecem poder preocupar-se apenas com a sua representação.
Vive-se numa estagnante crença generalizada de que fazer arquitectura é fazer casinhas. Perguntem a um arquitecto quantos dos clientes que lhe entram pela porta já trazem um desenho na algibeira, e eles apenas saberão dizer-lhes quão poucos o não fizeram. Pois claro: “três quartos virados a nascente, uma sala virada a sul, duas casas de banho (para as visitas não me encharcarem o tampo da sanita com fluídos alheios), uma cozinha muito gira (como vinha naquela revista com o monte da Tatá da Cunha Freitas e Andrade da Fonseca), e já está”. Pois está! O caos urbano e a inconsequência do marasmo artístico e técnico em que insistimos em mergulhar as nossas cidades e povoações.
E depois, nada como ir ao “endireita”:
“É só para fazer o boneco e assinar (porque a minha casa, já sei eu como é que ela vai ser). Arquitecto? Livra!! Esses é só para gastar dinheiro e fazer a vida difícil cá ao Zé.”
Pois já vimos, no número anterior, que o papel do arquitecto transcende, largamente, a questão do “boneco”. E raros serão os casos em que quem recorre aos serviços de um arquitecto, não descubra que, no fim de contas, acabou por poupar dinheiro na obra (porque tudo estava muito bem definido, programado, quantificado, contabilizado e previsto) e ficou com uma casa (quando se trata de moradias) bem mais interessante, personalizada e apropriada ao seu estilo de vida, do que aquela que trazia na algibeira quando entrou no gabinete de um técnico habilitado e competente (porque, como em todos os ramos, também haverá arquitectos que deixam a desejar na sua competência, e não-arquitectos que projectam com danos menores).
Um arquitecto tem uma formação profunda e altamente especializada (cada vez mais); tem uma actividade intensa que lida com as temáticas da utilização e fruição do espaço; conhece as diversas vertentes de relacionamento com o espaço (funcional, estética, emocional, simbólica, substantiva, provocadora, catalizadora das mais diversas funções e estados de espírito); possui uma prática crescente de concepção de espaços e edifícios, com a consequente confrontação com todo o tipo de problemas e possíveis soluções; adquire uma constante actualização dos seus conhecimentos de exemplos construídos, com toda a informação técnica subjacente; dedica a sua vida inteira ao estudo e compreensão destas questões e sua colocação em prática.
Mas para alguns, ainda é “o tal tipo chato que não percebe que a minha casa tem de ser como este boneco que eu fiz com a minha esposa”...