26 maio 2004

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Aquele que pode ser considerado como o número zero destas crónicas saiu, no passado dia 05 de Maio, amputado de parte do texto previsto. Azar? Antes um erro. Um simples erro de paginação. Erros que sucedem em qualquer processo de concretização de uma ideia, e que só não comete quem nada edifica.
(o texto em questão foi publicado na íntegra no dia 07, repondo a situação, com o devido esclarecimento aos leitores)
E este poderá ser o mote para que se tente clarificar o papel do arquitecto no longo e muito participado processo que leva à construção e fruição de um edifício ou objecto urbanístico.
Se é facilmente aceite que a verdadeira função do arquitecto, na sua génese, é a de conceber espaços e edifícios, não deixa de ser um facto que é na coordenação das diversas componentes e intervenções que permitem a boa execução desses mesmos edifícios e espaços, que a actuação do arquitecto mais é exigida, ainda que, numa análise mais lacónica, menos seja visível. E é também nessa linha que o arquitecto se torna, para o promotor da obra, indispensável. Este facto ganha tanta mais relevância quanto mais o dito promotor provém de meios alheios ao da construção civil, tendo o seu expoente máximo na corrente construção de habitação própria para particulares.
Das temáticas da concepção e das suas premissas e condicionantes (a montante) e reflexos e sensibilidades (a jusante), falar-se-á numa outra ocasião. Para já, tente-se compreender o arquitecto enquanto gestor de obra (no seu sentido lato - concepção_adjudicação_construção).
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Desta fácil (mas eficaz) citação, retire-se o cariz supersticioso - evitando alusões à prevalência de entidades etéreas (perdoem-me o cepticismo) - e acrescente-se uma outra frase (que cito de memória, sem estar certo do seu autor - Bergman?): A obra de criação compoem-se de 20% de inspiração e 80% de transpiração.
Portanto vejamos: Deus (chamemos-lhe assim) quer, o homem sonha, alguém trabalha, a obra nasce - assim já vamos lá!
E é neste novo ponto, acrescentado à frase do poeta (vá lá, não sejam fundamentalistas) que o arquitecto mais terá de intervir. Para permitir a boa execução de todas as partes mas, também, para salvaguardar a personalidade do seu objecto de criação e criatividade.
Sejamos francos: a esmagadora maioria das pessoas encara o recurso aos serviços de um arquitecto como algo de (infelizmente) inevitável.
Sejamos rigorosos: a esmagadora maioria das pessoas que recorre aos serviços de um arquitecto apercebe-se (mais cedo ou mais tarde) da importância e benifícios de o ter feito.
Um processo completo, até à construção, consta da elaboração de um programa, da concepção de linhas gerais de projecto (que vão dar corpo a esse programa e permitir o seu licenciamento), da elaboração de projectos específicos de todas as especialidades (estruturas, águas, esgotos, electricidade, etc), da definição de todos os detalhes construtivos (com materiais a utilizar e forma de os aplicar), da escolha de mão de obra competente e devidamente especializada, da pesquisa de formas e locais de aquisição dos materiais e equipamento, e da execução da obra propriamente dita. Não esquecer que cada uma destas fases inclui uma perspectiva de execuibilidade, dos pontos de vista técnico, económico e jurídico, assim como estético, construtivo e arquitectónico.
Será, pois, o arquitecto, a personagem que encabeça todo este processo e que proporciona a boa interacção de todas as partes. Desde a resposta aos desejos do promotor, passando pela verificação de que todas as especialidades se correspondem, de que as soluções técnicas adoptadas são execuíveis e compatívies (e pertinentes), de que o equipamento e materiais escolhidos cumprem a mesma função a que o projecto inicial se propôs, de que as opções tomadas constituem a melhor relação custo/desempenho, de que a mão de obra é capaz, de que não subsistem dúvidas na interpretação do projecto durante a execução da obra, até à capacidade de, em sistema de “golpe de rins”, por vezes ter de readaptar o curso do projecto à medida do contexto real - tudo isto é da competência do arquitecto.
Isto constitui a maior parte do trabalho do arquitecto, porquanto a breve fase da concepção sobressai no final, mas não vai além dos tais 20% de inspiração...
Erros, só os não comete quem nada edifica.
Mas, se houver um pólo dinamizador, que faz converger todas as energias, a probabilidade de que esses erros ocorram reduz-se na proporcionalidade inversa das hipóteses de optimização do processo.
E esse polo dinamizador - nesta perspectiva de gestor de obra (no seu sentido lato - concepção_adjudicação_construção) - é o arquitecto.