12 março 2006

INTRODUÇÃO

As crónicas aqui apresentadas foram escritas a convite do sub-director do jornal Diário do Sul, Manuel Piçarra (filho) para integrarem o suplemento cultural semanal daquele orgão da imprensa, que ele iniciou desde 2004.
São textos escritos semanalmente, entre Maio de 2004 e Julho de 2005, e tentam criar alguma discussão e ponderação sobre a vasta temática da arquitectura, procurando ter um conteúdo acessível à maioria dos leitores que não está familiarizada com estas questões. Tratando-se do jornal de maior tiragem e leitura a nível do distrito (mesmo comparativamente com jornais nacionais), pareceu justificável a opção ocasional por temas de abrangência mais local.
Por motivos vários - que poderiam sempre filiar-se na grande familia da censura e do medo pela livre expressão e pelos efeitos perturbadores da crónica de opinião - a série de publicações semanais foi interrompida por longo período, sendo retomada após solicitações várias, vindo a ser definitivamente abandonada no final de Julho de 2005.
Que fique assinalado o empenhamento e interesse louváveis com que o sub-director Manuel Piçarra (filho) se bateu pela publicação destas crónicas e pela liberdade de opinião na sua elaboração.
Para que o marasmo do politicamente correcto não triunfe, publiquei estes textos na íntegra, esperando com isso não a simples divulgação de opiniões próprias, mas a saudável provocação ou o simples pretexto para a discussão e a ponderação sobre estas temáticas.
Acijma de tudo, que este blog não seja entendido como sendo exclusivo a arquitectos!
*Os textos estão identificados com o número de crónica e com o título e a data com que foram originalmente publicados no D. Quixote - suplemento cultural do Diário do Sul, todas as quartas-feiras.

27 julho 2005

23 _ se um elefante incomoda muita gente...

Eis-nos chegados à última semana de Julho. Por esta altura, já muitos partiram de férias, enquanto outros aderem à tendência maioritária(?) das férias em Agosto.
É altura das viagens, das promoções, dos incentivos à escolha de destinos paradisíacos...
Uma das coisas que muito me desagrada nestas investidas da promoção de destinos de férias, é aquele sector da imprensa e revistas da especialidade que, ainda não percebi se por generosidade ingénua ou se por pedantismo, apregoa a busca de locais “semi-selvagens” como fuga aos destinos habituais e propõe alguns desses destinos que, até aí, eram bastante tranquilos e agradáveis. Claro que, a partir daí, deixam de o ser. Na minha opinião, isso só serve para destruir os poucos lugares onde ainda se pode gozar de alguma tranquilidade, já que aqueles que gostam realmente de sítios diferentes têm a iniciativa e o saber para os procurarem e para terem a gratificante recompensa da descoberta (muito mais saborosa do que a previsibilidade).
Pessoalmente, tenho por hábito (que tem tanto de egoísta como de pura manobra de sobrevivência) não revelar os locais de férias preferidos, ou pelo menos não andar por aí a apregoá-los aos sete ventos, para aí não ter de encontrar, num ano seguinte, uma horda de barraquinhas de cachorros, de parques de estacionamento, de cheiro a bronzeador de côco, de crianças histéricas, de pais no limiar da irritabilidade, e de todos aqueles estereótipos que a banda desenhada de Frank Margerin, por exemplo, tão bem captou. Por isso fico até contente com os hábitos da maioria.
É que essa maioria, apesar de se estar a espalhar um pouco por todo o lado, tem uma série de destinos migratórios sazonais de pouca diversidade. E se isto é saudável para a preservação dos locais menos concorridos, é extremamente saturante para os destinos preferenciais das massas. E com uma agravante - com a necessidade de dar resposta às multidões que acorrem a esses locais, foi (e está a ser) criada uma série de condições para a recepção dessas massas. O caso do Algarve é, obviamente, um paradigma desta realidade. O grande problema é que esse crescimento desmesurado traz graves situações de insuficiência, quer de um lado quer de outro. Ou seja, se as povoações não se adaptarem à afluência pontual e sazonal de turístas, entram em ruptura quando esse fenómeno ocorre, mas, se pelo contrário, forem equipadas para darem resposta à “invasão”, ficam com insuficiência de utilizadores de todos os equipamentos introduzidos, aquando do abandono das massas, em final de época.
Durante algum tempo, morei numa localidade costeira do sudoeste alentejano, bem conhecida de todos, e pude verificar em primeira mão esta oscilação entre dois extremos, sem que haja realmente um equilibrio, exceptuando uns escassos dias por ano, em início e fim de época. É uma povoação que cresceu bastante - e, pasme-se(!), mal... - quase exclusivamente à custa da construção de edifícios de habitação. E aqui surge outro problema, porventura mais grave. Na realidade, as malhas urbanas desses locais densificam-se e expandem-se, mas a introdução de sistemas de infra-estruturas e de equipamentos complementares não acompanha o aumento da construção de moradias. Até porque, se integrarmos o sector privado no fornecimento de equipamentos e serviços desses locais, temos de chegar à conclusão que muito dificilmente um investimento se paga com uma utilização de algumas semanas por ano, ainda que essa utilização ocorra de forma intensiva. Se pensarmos que a maioria das habitações de que falo se destinam a casas de férias e/ou de fim-de-semana, então o caso fica mais flagrante.
Então lá estava eu, nessa charmosa localidade costeira alentejana, a mover-me numa espécie de cidade-fantasma durante todo o ano, em que raramente encontrava alguém nas ruas depois do recolher das velhotas que saíam da missa das 18h30, em que não havia mais do que dois ou três sítios onde se pudesse ir comer, conviver ou socializar, e quase apenas aos fins-de-semana e durante o dia, e em que o dia-a-dia era menos impulsivo do que seria desejável, pela escassez de oferta a todos os níveis. Para depois, assim que o sol começava a anunciar o calor do sul lusitano, ter “o quintal semeado” de turístas em bandos frenéticos. Nessa altura, era uma situação semelhante, mas por causas opostas - não se podia ter acesso a nada, não havia lugar em lado nenhum, tudo pela diferença entre o volume e o conteúdo. Era quase o mesmo do que não ter nada, com a agravante da desordem e do caos.
Mas o pior, mesmo, desta situação, não é o desconforto gerado de forma idiossincrática, mas antes a questão das infra-estruturas de abastecimento e de saneamento, com a total incapacidade de resposta para a afluência em massa. Os esgotos saturavam, a água não era bastante, o sistema de recolhas de lixo era ineficaz, etc, etc.
Mas a solução deste problema não é nada fácil. Por um lado, não se pode querer fechar as localidades à procura turística, nem se conseguiria, mesmo caindo no erro de assim se decidir. Por outro lado, todos os serviços e condições de funcionamento desses mesmos locais estão constituídos para darem resposta a um rítmo e intensidade de vida e de utilização muito baixos, tendo em conta a escassa população que ali reside. E, se a nível da tal intervenção do sector privado (falo da oferta de serviços e de bens) a situação até poderá ser, já de si, difícil de definir, passando por casos pontuais e por eventuais sazonalidades de funcionamento - segundo a rentabilidade possivel - no que diz respeito às infra-estruturas, a coisa é mais complexa, mas poderia estar mais afinada em certos aspectos. Um deles é o controlo rigoroso da utilização dos espaços de alojamento, tais como, por exemplo, os parques de campismo, que, invariavelmente, no nosso país, estão sobre-lotados e sem infra-estruturas competentes. A articulação, a nível do planeamento urbano, deste e de outros tipos de equipamentos que atraiam turístas tem de estar associada à intervenção municipal no campo das infra-estruturas.
A tal povoação costeira onde eu vivia, por exemplo, tinha cerca de três mil habitantes permanentes, e recebia alguns trinta mil no pico da época de férias. Perante esta situação, parece-me exigível que as infra-estruturas estejam preparadas para o limite superior, funcionando em “sub-rendimento” durante o resto do ano (por oposição a funcionarem de forma insuficiente no período forte). Claro que a situação não era esta... Isto se, de facto, se quer “permitir” (ou criar as condições que permitam) a vinda de tamanha quantidade de pessoas nessas épocas.
Claro que há outros problemas mais complicados, tais como a heterogenidade da malha urbana, a criação de zonas de utilização diversa, como oposição à desaconselhável expansão de zonas dormitório, que é o que acontece. Um pouco como termos uma casa grande, onde recebemos amigos aos fins-de-semana, mas que utilizamos no seu todo, ao invés de termos meia dúzia de divisões que só se utiliza aos fins-de-semana, para alojar esses convidados, e que mantemos fechadas e inutilizadas durante o resto da semana.
Mas isso é um assunto muito mais difícil de resolver. Tão mais difícil e complexo, que nem me atrevo a falar disso aqui, em meia dúzia de linhas.
Bom seria, para já, que as condições básicas de abastecimento e saneamento dos locais mais procurados não fossem insuficientes para a utilização turística pontual, e que não ficassem em ruptura após a debandada geral, como uma carcaça abandonada por um predador, depois de um breve e regozijante festim.
Para que ir de férias saiba bem e para que quem lá fica depois também se sinta bem com isso.
Eu por mim, nas próximas semanas ainda cá estarei com estas crónicas. Depois também hei-de ir de férias. Mas... desculpem lá, não digo para onde...

20 julho 2005

22 _ a história da arquitectura

Ao contrário do que poderia sugerir uma metodologia mais racional das várias actividades da minha vida, não sou daquelas pessoas que tem um livrinho onde se assenta todos os afazeres e tarefas do futuro, mais ou menos próximo, nem tão pouco sou utilizador ou fã incondicional das tão elegantes e pomposas agendas de trabalho. Tenho, isso sim, um esquema mental das minhas ocupações e seus respectivos prazos. De forma que também não tenho uma lista organizada por temas ou sequenciada dos assuntos a tratar neste espaço de crónicas semanais. Ou seja: todas as segundas-feiras (o mais tardar), lá estou eu a lembrar-me “tenho de escrever a crónica para enviar amanhã para a redacção, para sair na quarta...!” Daí que me depare constantemente com a questão “sobre o que é que seria interessante escrever, esta semana?...” E é esse confronto com o vazio que torna interessante qualquer processo criativo. Tal como o escritor perante a folha em branco, o pintor face à vastidão intimidatória da tela limpa, o músico ante o silêncio...
E desta sensação me veio a vontade de escrever sobre esse momento, na aplicação específica do exercício da arquitectura, desse ponto de partida.
Quando se inicia um projecto de arquitectura, há uma série de luzes e indicadores que servem, simultaneamente, de limitadores de “devaneio”, mas também de indicadores de percursos, ou, pelo menos, de pistas de soluções possíveis. E se a componente limitativa pode ter um carácter negativo (e até opressor), não é menos verdade que as pistas que a mesma fonte nos fornece são extremamente úteis no desbravar dos primeiros passos projectuais.
Há sempre uma série de “modeladores” de percurso, inerentes à especificidade da intervenção e da situação, que são uma espécie de criadores do “humor do projecto”. Esses elementos contextuais, que apelidei de “modeladores”, podem ser (como, de resto, já aqui referi, salvo erro, há bastante tempo atrás) de três grandes famílias: de origem regulamentar (por imposições e restrições da legislação aplicável); de origem no promotor da obra, o “cliente” do arquitecto (por requisitos e exigências específicas - incluíndo as de teor económico, claro); de origem técnica (por especificidades do local, das técnicas construtivas disponíveis, da mão-de-obra, etc).
Mas, uma vez detectados estes limites, o arquitecto funcionará como um prisma para o qual converge a luz dispersa, emitindo um feixe preciso e focado pela outra extremidade.
E é precisamente aqui que reside o meu principal comentário de hoje - na forma como o arquitecto agarra nesses indicadores (limitações, exigências, requisitos, etc) e transforma isso num projecto.
Ora, no meu entender, a arquitectura insere-se tanto na família técnica das actividades humanas como na artística. E, partindo deste pressuposto, as duas componentes serão indissociáveis, sabendo que cada uma delas apenas poderá ir até onde não comprometa a outra.
Mas se, como digo atrás, a arquitectura tem uma componente artística inalienável, e entendendo a arte como algo que é, inevitavelmente, comunicação (entre outras coisas), então o caminho do arquitecto deverá ser bastante bem trilhado.
No meu entender, aquilo que é fundamental a qualquer obra que contenha uma faceta artística é contar uma história! Obviamente que não me refiro a uma história necessariamente línear, com um enredo e uma sequência cronológica. Nem sequer terá (nem deverá) de ser uma história palpável e “escandalosamente” perceptível, sob pena de se perder todo o interesse do jogo da comunicação que é o da descoberta-por-envolvimento da mensagem pelo destinatário. Um poema pode ser uma história, mesmo que tenha uma forma extremamente onírica e descontínua. Uma pintura abstracta pode ser uma história. Um gesto pode ser uma história...
No fundo, aquilo a que quero chegar é isto: Um projecto de arquitectura (deixemos agora de parte as outras intervenções artísticas), para o ser, tem de ter um conceito! E esse conceito tem de ser omnipresente (passe a redundância - uma vez que, se não for a bitola de todas as opções, não é um conceito, mas apenas ornamentação teórica episódica).
Quando falo de um conceito, não me refiro àquela coisa primária (quase patética, já) de “quartos virados a nascente, zona de serviços separada das zonas íntímas, pontos de água concentrados, etc”. Isso não é conceito nenhum, e não é arquitectura, sequer - é um conjunto de opções funcionais, de nível básico (ainda que possam ser extrememente válidas, em determinados contextos) que deverá ser posto ao serviço, ou em concordância com o conceito gerador do projecto. Obviamente não vos vou dar exemplos do que será um conceito, porque isso seria até algo paradoxal, num cenário tão abstracto. Mas, para tentar ilustrar o que digo, posso sugerir a imagem de um actor (mas um que seja bom...) que, mesmo recorrendo sempre a uma série de técnicas e processos, mais ou menos académicos e reincidentes, pauta-se sempre por um conceito - o da personagem que está a interpretar. Ele absorve a essência da personagem, e tudo aquilo que faz, mesmo se for um recurso comum a outras interpretações, sai “moldado” por essa personalidade que ele tenta encarnar naquela peça ou filme em concreto.
Bem sei que corro o risco de não ser bem entendido por alguns, porque, infelizmente, esta presença de vida própria (que é o conceito de um projecto específico) não está presente na esmagadora maioria dos edifícios e das intervenções que à nossa volta se faz.
Causa-me sempre alguma apreensão quando falo com algum projectista (note-se que a maioria dos que exercem não são arquitectos) e me explicam um projecto começando pela porta de entrada, depois há os quartos, depois não sei o quê... Isto mostra a total ausência de um conceito de fundo, porque, quando ele existe, a explicação de um projecto passa por uma teia de considerações e de ponderações muito reflectidas, que só adquirem “essa coisa dos quartos e da entrada” numa fase muito posterior e como consequência (quase inevitável) desse conceito. Até porque, de certo modo, quando se inicia um projecto, ele pode ter infinitas soluções, mas, após se surgir essa presença de um conceito no processo, a solução é quase “a única possível”. A própria coerência de raciocínios e de gestualidades quase tem essa inevitabilidade implícita.
Não me entendam mal! O conceito não deve ser algo que freneticamente se busca numa tentativa de minimizar falhas de inspiração ou de recursos, nem deve ser algo que se introduz no processo para “explicar o inexplicável”. Ele deverá surgir de forma expontânea, e tal até poderá nem acontecer de forma consciente ou racional. Mas, ao surgir, vai subtilmente moldar os nossos gestos, aferindo coerência e vigor ao projecto, dando-lhe uma vida própria.
Numa comparação algo lacónica, a ausência de um conceito próprio na elaboração de um projecto poder-se-ía ver como a produção de um filme em que a história é sempre (por exemplo) a de um rapaz que conhece uma rapariga, apaixonam-se, acontece uma desgraça, vencem a desgraça e vivem felizes para sempre. Apenas se vai mudando os actores, as suas roupas, os penteados e pouco mais. O resultado é uma produção em série de “lixo-repetitivo desprovido de conteúdo e de carácter”.
Na arquitectura pode-se falar da mesma forma. E basta olhar à volta...
Numa altura em que não se pára de falar na revogação do artigo 73/73 (que permite a realização de projectos de arquitectura a outros que não exclusivamente arquitectos) é necessário que isto seja compreendido, e que deixemos de ter “projectos à desenhador” - em que lá estão os “quartos virados a nascente, a zona de serviços separada da zona íntima, etc, etc”, num exercício de pseudo-arquitectura capaz de adormecer uma águia em pleno vôo picado. Pior do que isso - capaz de nos dar cabo (ainda mais) do edificado e da qualidade de vida às famílias portuguesas, cuja maioria, obviamente, não está sensibilizada para este tipo de questões e delega essa tarefa e responsabilidade (e muito bem) nos projectistas...
Ponha-se lá os quartos a nascente. Ponha-se lá as zonas de serviço separadas das zonas privadas. Ponha-se lá tudo isso na mesma, se assim se justificar. Mas ponha-se isso ao serviço de uma ideia qualquer, e não sendo apenas isso a ideia.
E era este o meu conceito de hoje...

13 julho 2005

21 _ elas comem tudo (e não deixam nada)

Numa perspectiva mais focalizada, nestas coisas da arquitectura, debruço-me hoje sobre um aspecto menos conceptual - o da construção, nomeadamente das patologias.
Nesta vastíssima matéria, há uma situação que me atrai a atenção e me preocupa sobremaneira. Refiro-me a um fenómeno que poderia apelidar como se de um filme de ficção científica série B se tratasse. “O Ataque das Térmitas!”.
Em 1954, Gordon Douglas realizou Them! - um filme pioneiro no sub-género do terror/ficção-científica da ameaça de insectos gigantescos, em que o Novo México era atacado por formigas gigantes. Na altura isto era uma reflexão apreensiva sobre a era atómica e os insectos gigantes eram uma sórdida metáfora da ameaça comunista, no despontar da guerra fria. É um filme que aconselho vivamente aos amantes do género, ou do cinema em geral.
O “filme” de hoje em dia não nos traz insectos em tamanho desmesurado, mas também não nos traz o conforto de sabermos que depois da sessão acabar, voltamos para nossa casa e tudo não passou de um produto de uma fértil imaginação e criatividade. A ameaça continua, para nós.
A maior parte das pessoas nem acredita que as térmitas existam no nosso país. Acham que é uma coisa “lá das Áfricas”... Mas, na realidade, há umas boas dezenas ou até centenas de variedades de térmitas, algumas das quais em Portugal.
A térmita é, no fundo, uma formiga. A diferença é que é uma formiga que se alimenta de celulose. E vai encontrar esta celulose nas madeiras, sobretudo nas macias. E não se trata do vulgarmente designado por “bicho da madeira”. Esse é o caruncho. A diferença é que o caruncho é mais facilmente detectável e a térmita tem uma velocidade de destruição incrivelmente superior à daquele. Uma casa minada de térmitas pode ser literalmente devorada em dois a três anos!
Basicamente há dois tipos de térmitas: as de superfície e as subterrâneas. As primeiras são menos “perigosas” do que as últimas, apenas porque mais facilmente se detecta a sua presença, enquanto que as subterrâneas podem causar danos incríveis antes de serem notadas.
Para que se perceba como se pode diagnosticar a praga, aqui ficam alguns indicadores:
Caruncho: uma espécie de escaravelho pequeno (3-9 mm) que deixa orifícios redondos na superfície da madeira, com algum serrim em torno deste.
Térmita de superfície: formiga com uma pluridade de indivíduos, na sua comunidade, com fisionomias diferentes; pode ser vista sobre a madeira; faz orifícios em galerias desordenadas, mas geralmente ao sabor dos veios da madeira, seguindo o curso da madeira mais macia; deixa pequenos montes de serrim junto aos orifícios; metamorfoseia-se durante a sua vida, e, a um certo momento, ganha asas, com as quais migra para formar novas colónias. Estas asas são diferentes das das formigas comuns, pela diferença de comprimento entre o par anterior e o posterior.
Térmitas subterrâneas: semelhantes às de superfície, mas não suportam a exposição solar, pelo que são dificilmente visíveis; não deixam resíduos; podem devorar o miolo das madeiras, deixando-as apenas com uma pequena capa superficial (que protege as suas galerias da luz do sol), antes de tal ser apreensível do exterior.
Ora, o problema não está em identificar correctamente a praga, porque há inúmeras empresas especializadas na matéria. O problema está em tratar-lhe da saúde atempadamente e correctamente. Numa perspectiva mais assustadora, pode-se comparar uma praga de térmitas a um cancro, que corroi por dentro, sem se ver, e que, se não for correctamente controlado e saneado, vai manifestar-se noutro ponto qualquer, até causar o colapso.
A grande questão é o custo dos tratamentos eficazes... Há dois tipos de tratamento: um que funciona de forma localizada, através de injecções nas madeiras “infectadas” e na substituição das peças mais degradadas. Este tratamento é substancialmente mais barato, mas, tal como diz a sabedoria popular, o barato sai caro! Quase sempre, passadas duas ou três temporadas, aí estão elas de volta, em força. Isto porque as térmitas são extraordinariamente bem organizadas, e não é qualquer injecção que as vai conseguir apanhar... Elas escapam durante o processo de extermínio, alojam-se noutros pontos, recolhem-se em sítios onde a impregnação não as atinge, etc. E, se não morrerem rigorosamente todas, mais cedo ou mais tarde já serão de novo numerosas (uma fêmea pode colocar até três mil ovos por dia!!). Para além disto, a aplicação de injecções não torna a casa imune, apenas mata a população existente, e apenas na área tratada. Frequentemente, esta solução origina a debandada das térmitas para os edifícios vizinhos, agravando a dimensão da praga. E assim sucessivamente...
O outro método (mais oneroso mas mais eficaz e consequente) consiste na gaseificação de todo o interior dos edifícios. Estes são selados, e é largado um gás que penetra profundamente em todos os poros da madeira e das paredes (onde pode haver nidificação), exterminando completamente a população existente, imunizando essas áreas, e aferindo uma resistência a futuros ataques. Paralelamente a este processo, aplica-se uma série de injecções no perímetro do edifício ou nas suas fundações, criando uma barreira à invasão destes insectos, que se podem deslocar pelo solo ou por paredes de menor densidade.
O ideal seria que estas práticas fossem levadas a cabo numa perspectiva de “zona”, havendo intervenções de conjunto, a nível da vizinhança, de quarteirões, para se ter a certeza de que a praga é erradicada e o conjunto de edifícios fica imunizado. Porque os actos solitários podem contribuir para a deslocação da praga e o seu desenvolvimento e disseminação. E, inevitavelmente, eles virão bater à nossa porta de novo! Como um cancro mal curado, que se elimina de um orgão, mas que surge, logo de seguida, noutro ponto, e noutro...
Mas isto é a cura. Claro que a prática mais lógica seria a da prevenção. E isto passa, apenas e só, por três pontos, de importância crescente: manter os interiores bem arejados; eliminar as humidades no interior dos edifícios e nas paredes (um dia aqui falarei desta questão e de como proceder); tratar convenientemente as madeiras. É este último ponto o essencial, sem o qual nenhum dos outros é suficiente. E atenção, porque tratar as madeiras não quer dizer aplicar um tapa-poros, um verniz, ou um tratamento qualquer de superfície. Tem de ser com um produto que seja efectivamente um anti-xilófago. Não vale a pena ouvir nada que os vendedores ou a sabedoria do “eu sempre fiz com isto” possa dizer. Só um verdadeiro anti-xilófago, correctamente aplicado - com as devidas demãos, nas duas faces das tábuas e (muito importante!) nos topos que encostam às paredes (pontos de grande vulnerabilidade) - será eficaz e fiável. É essencial que esta prática seja bem aplicada em obra, sob pena de continuarmos a ter os nossos edifícios a serem comidos por esta praga silenciosa e discreta.
A Europa está a ser invadida por térmitas a um rítmo acelarado, com problemas gravíssimos (veja-se o caso da destruição de património, por exemplo) e enormes dores de cabeça daí resultantes.
Num conto de Patrick Süskind intitulado “O legado de Maître Mussard”, é relatada a obcessão de um velho homem com formas conquíferas que ele julga estarem a invadir o mundo pelo sub-solo, transformando o planeta numa gigantesca concha. Eu não queria que me entendessem como paranóico semelhante, com este alarme para a questão das térmitas. Mas estudem bem os sintomas, façam umas perguntas por entre os amigos, e vejam lá qual é a percentagem deles que já tem umas “formigas de asa que deixam um pózinho” lá por casa...
(p/ RC)

06 julho 2005

20 _ há festa na aldeia

A feira chegou ao fim!
Os stands de exposição, as barraquinhas da horta das laranjeiras, os carroceis, o palco do jardim público, o palco jovem, as exposições - tudo vai ser cuidadosamente desmontado, carregado, transportado, guardado, e armazenado até ao ano que vem, para mais uma feira de S. João. A cidade já se habituou a este período de folia, diversão, animação e fulgor que a feira lhe traz.
Antes da feira foi a comemoração do 25 de Abril. Também havia palcos, exposições, animação, folia...
Depois da feira será a campanha eleitoral. Também haverá palcos, animação, muito mais fulgor!
Mas, serei só eu, ou estas coisas assemelham-se às festividades das aldeias - aquelas de onde vinham os nossos pais, os nossos avós, a nossa origem?
Estas festas pontuais (que, de resto são apaixonantes e de saudar calorosamente) não serão um apressado oásis na aridez cultural de uma cidade em desertificação? Não falo de desertificação demográfica, mas de ausência de viçosidade cultural e lúdica, tão necessárias (mesmo essenciais) à condição de cidade urbana.
A cultura, a arte, e todas as manifestações que contêm algo de transcendente (no seu estado pagão) e de estreita ligação com o ócio e com os prazeres do espírito, nascem de uma sofisticação da sociedade. Acho que já falei disto por aqui... Só uma sociedade que atinge um certo nível - social e económico - é que se pode “dar ao luxo” de produzir arte e cultura lúdica de forma continuada. Daí que a cultura, como atitude, seja, geneticamente, uma “invenção” urbana. Nas tais aldeias dos nossos pais, as manifestações culturais também aconteciam uma vez por ano. Ou duas, ou três, mas sempre em datas precisas, para as quais as pessoas se preparavam, libertando-se de todos os afazeres, para nelas poderem tomar parte. Durante o resto do ano não havia cá vagar para bailaricos ou festança, que o burro quer palha, a ovelha quer ir ao pasto, o milho tem de se debulhar, e já lá vem a geada...
Uma cidade (que o queira ser) não pode ter esta realidade provinciana de cultura.
A feira de S. João, é um acontecimento fantástico em Évora! Também não esconde um certo carácter bucólico, e talvez ainda bem que assim seja. Mas uma capital de distrito, uma cidade património mundial, um centro estudantil, um local de destino de turismo de grandes quantidades, como é Évora, não pode ter meia dúzia de eventos de carácter efémero e delegar neles a necessidade cosmopolita de oferecer urbanidade aos seus habitantes e visitantes.
Quero referir-me, mais precisamente, a uma situação que constitui (para mim e para a maioria dos meus colegas de profissão, de gente da cultura e de pessoas de bom senso) uma dor de alma nesta cidade: o Salão Central.
Nas comemorações do 25 de Abril deste ano, a Câmara Municipal organizou uma série de eventos, alguns dos quais tiveram lugar no Pátio do Salema. Quem por lá tenha passado, terá visto a capacidade natural fabulosa que este local tem para albergar iniciativas desta índole. Se não veja-se:
Uma praça, com condições de acolhimento excelentes - bem ladeada por edifícios de porte, morfologia e utilização vantajosos.
Uma localização magnífica - no centro da cidade, com condições de acessibilidade óptimas (e a vida não se faz só ao volante de um automóvel - já para prever falsos argumentos de contestação ao que digo).
Uma funcionalidade soberba - permite a realização de eventos de vária espécie (já por lá se fez espectáculos, concertos de música, projecção de filmes...), com recurso aos vários cenários próprios da praça e à sua relação com o espaço vazio e de circulação desta.
Uma morfologia urbana privilegiada - trata-se de um espaço contido, definido e com bastante personalidade, que pode, inclusivamente, ser facilmente interditado pontualmente ao trânsito, durante a ocorrência de espectáculos, sem haver a menor dificuldade no desvio do tráfego (isto permite a realização de praticamente todo o tipo de eventos, possibilitando, inclusivamente, a cobrança de bilhetes ao público, se tal porventura se justificar).
Uma disponibilidade de espaços versáteis e complementares que, em exclusividade (não há habitação nesta zona, o que lhe eleva, sobremaneira, o potencial cultural), conferem ao pátio a versatilidade de poder ser o ponto exacto dos acontecimentos, ou o ponto central, em torno do qual gira a variedade de acontecimentos - de um lado, o edifício da SOIR Joaquim António de Aguiar (por si, um espaço já vocacionado para as manifestações culturais e artísticas); ao lado, um espaço devoluto (não sei qual o seu estatuto real, tecnicamente falando), conhecido como Juventude, que é uma sala com uma área e volumetria interessantíssimas para a realização de outro tipo de eventos; em frente, um fantástico foyer “natural”, que é a arcaria de permeabilidade no pátio, já de si possibilitando a relação com o pequeno pátio adjacente (Pátio de S. Pedro, se não estou em erro), inclusivamente enriquecido pela varanda que o encima; por fim, a cereja no topo do bolo, o Salão Central - um magnífico edifício, da autoria de um dos mais importantes arquitectos da nossa história (de F. Keil do Amaral, edificado em 1943), construção notável e de interesse profundo, quer do ponto de vista arquitectónico, quer do ponto de vista urbanístico. A localização de um equipamento desta natureza num espaço como o Pátio do Salema é uma realidade que muitas cidades gostariam de ter, e que a nossa parece estar a ignorar. Diz-se por aí, em jeito de boato, que o Salão Central será vendido... Alguém, com um sentido de humor suficientemente negro para despertar interesse, resolveu pintar grafittis de anúncios de venda do imóvel. Os boatos são enganosos, e este sê-lo-á, queremos todos acreditar..! Mas o que é certo, é que se diz por aí, em surdina, que até já lá foram uns avalistas, chamados pela Câmara Municipal... Eu não sou negociante de imóveis, mas na minha terra, quando se chama um avalista é para se vender um imóvel...
Pode ser que não, e que tudo isto seja um boato sem fundamento real. O outro dizia que, depois de ter visto o tal porco a andar de bicicleta num circo, já acreditava em tudo. Pois eu ainda não acredito em tudo, e não quero acreditar que este, ou qualquer outro executivo municipal possa cometer um acto tão grave, inconsciente e lesivo para a sua população e para a sua cidade, como seja o de alienar definitivamente um equipamento de interesse relevante e um elemento de património de destaque. Mas também não seria mau que o edil primasse um pouco mais pela transparência e que contasse aqui ao povo o que raio está a pensar fazer com o nosso Salão Central, que não ata nem desata! Esperemos que seja uma história com um final feliz...
A potencialidade de um conjunto como o do Pátio do Salema, com a sua localização privilegiada, com todas as suas potencialidades de utilização, com a sua riqueza arquitectónica e com a sua disponibilidade em termos de equipamentos e espaços existentes, transforma este espaço, real e existente na cidade de Évora, numa quasi utopia para a maioria das cidades que lhe são demograficamente e contextualmente equiparáveis.
É uma magnífica oportunidade para dotar esta cidade de um cariz mais urbano, cosmopolita, e mesmo citadino, numa época em que, cada vez mais, me vêm à cabeça as palavras de Vergílio Ferreira, que por cá passou, por cá viveu uns quinze anos, e aqui escreveu a “Aparição”, onde diz, pela boca da sua personagem principal (Alberto Soares), ao confrontar-se com a realidade eborense: “Évora: cidade onde não se pode ter mais do que a quarta classe, nem menos de quatrocentos porcos”.
Évora pode fazer a diferença! O seu estatuto de Cidade Património Mundial da UNESCO exige uma outra dinâmica cultural, e permite muita intervenção a este nível. A vertente turística desta bela cidade não pode assentar apenas em ruelas charmosas de casario branco e em migas, pézinhos de coentrada e ensopado de borrego...! Pede-se dinâmica, vida cultural, personalidade. Mais do que a Feira de S. João (bem haja). Mais do que as comemorações do 25 de Abril. Mais do que a campanha eleitoral que deve estar para aí a rebentar. Para que se abandone esta musealização da urbe, e se sinta o pulsar de uma cidade viva, com uma palavra a dizer.
Porque, senão, só teremos outra vez as barraquinhas das farturas, os carroceis, os stands expositivos, e mais duas semanas de folia...
E, de novo, haverá festa na aldeia...

30 junho 2005

19 _ eu não queria morar numa favela

Numa das crónicas passadas, deixei a promessa de que um destes dias dedicaria algumas linhas à temática dos chamados “condomínios fechados”. E é a propósito do fenómeno bombástico do “arrastão” da Praia de Carcavelos, no passado dia 10 de Junho, que esse tema me parece pertinente.
O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Para se perceber a relação, é necessário analisar os acontecimentos da praia numa perspectiva mais dilatada - até porque, tal como tenho insinuado frequentemente, isto da arquitectura (e do urbanismo) tem muito mais a ver com as questões sociais, psicológicas e triviais da vida e da organização social do que com tijolos e cimento, formas e volumes, ou técnicas e materiais de construção.
É, portanto, necessário arriscar uma análise das causas do problema, e não das soluções fatais, como o facilitismo “higiénico-repressivo” preconiza. Permito-me a reflexão social, ao dizer que é mais do que irresponsável e egoísta a postura da simples punição dos autores do sucedido, e da prevenção, pela autoridade, de futuras sequelas, resumindo-se, tais medidas, ao foro paliativo. Pode-se pensar que os autores do mal-afamado “arrastão” são apenas uma cambada de selvagens, ou uma corja de vândalos, que isso apenas serve para suscitar ódios míopes e para conter a pressão que, inevitavelmente explodirá por outro lado. De resto, foi exactamente isso que aconteceu - a explosão de pressões acumuladas (o facto de se ter passado no dia de Portugal será um acaso, ou uma sarcástica nota deixada a toda a sociedade?).
Os intervenientes nos distúrbios do 10 de Junho são (pelo menos assim parece) oriundos, na sua esmagadora maioria, de zonas problemáticas e com baixíssimos índices de conforto, inserção social, qualidade de vida, acesso a critérios mínimos de bem-estar social, etc, etc, etc... Sem ser necessário argumentar muito sobre o racismo latente na cultura portuguesa (e se ele existe!), é por demais evidente a ostracização infligida na considerável (e crescente) população de emigrantes oriundos dos países africanos. Durante anos a fio eles foram (e são) impedidos de ter acesso a níveis de vida e a oportunidades que pudessem permitir a sua integração real, resultando, essa barreira, na “guetização” dessa população. Não é um raciocínio difícil. Difícil é admitir que isto continua e é, também, perceber que tudo (ou quase) foi feito de forma semi-intencional, com o mesmo propósito mesquinho e côxo de muitas das intervenções sociais da nossa cultura (como seja, por exemplo, a questão do sistema penal - não se trata de auxiliar pessoas com dificuldade de inserção, trata-se, sim, de as afastar da nossa área e de os impedir de nos incomodarem - o princípio do depositório de elementos problemáticos, ao invés do da sua reabilitação e reinserção. Isto é podre na sua essência, e gera um fosso entre duas realidades, com a clara supremacia de uma delas e a consequente revolta crescente da outra.
Alguém, num dos nossos jornais que ainda dizem coisas de ler, dizia, lucidamente, que o processo de intervenção num caso destes não passa pela repressão e pelo reforço da autoridade (pelo menos não passa só por aí), mas antes por algo que se pode invocar pela letra de uma das canções do Sérgio Godinho “paz, pão, habitação, saúde, educação”. É nestes pilares básicos da integração social que assenta a dissolução de tensões sociais. Todos os quadrantes políticos estão de acordo nisto - ainda que, depois, procedam de formas diferentes, de acordo com as suas convicções, para atingirem esse fim. Ora, o problema, é que esse fim está muito longe da realidade, e dá-me a impressão de que fica lá do outro lado, e não daquele para o qual nos dirigimos...
O condomínio fechado? É isto, no fundo... Trata-se da maior declaração de fiasco e de total inoperância das opções sociais em que fundamentamos a nossa organização. É o atestado de incompetência e disfunção totais da sociedade que criámos. O processo é análogo: A ideia já não é permitir a convivência de todos os membros de uma sociedade. Nem sequer é a de sonhar com isso. Agora trata-se de trepar por aí acima, passando por cima do que se puder passar, para poder alcançar meios para o refúgio da sociedade apodrecida. Ou seja: passámos tanto tempo a depositar os “elementos indesejáveis” da nossa sociedade à margem do nosso mundo, que a margem foi crescendo e tornou-se maior do que a folha. Agora resta tentar comprar um refúgio, longe dessa margem que já inunda o resto da folha. Já não chega criar (ou deixar criar) os bairros carenciados, para que os elementos que ali vivem vão “morrer longe” e não nos incomodem. Trata-se de criar ilhas paradisíacas, dentro da sociedade, onde ninguém pode penetrar, para aí irmos (aqueles cujo nível económico o permita) buscar refúgio, num modelo proto-fortificado. Na gloriosa época do cinema de terror, eram frequentes as situações em que o herói, para escapar à crescente e imparável ameaça dos mortos-vivos, se trancava dentro da cela da prisão, com a chave por dentro. Aí têm os condomínios fechados, numa perspectiva crua e desencantada! Uma zona de estacionamento onde os nossos carros não sejam assaltados nem vandalizados; uma zona de lazer onde os nossos filhos não sejam corrompidos e não os seduzam para vícios e práticas impróprias; uma barreira de protecção que impeça “esses vândalos que por aí andam” de encher as paredes das nossas casas com grafittis; uma piscina onde impere a selectividade e a esterilização obcessiva; e por aí fora, etc, etc, etc.
Não digo que tudo isto não seja, até certo ponto, compreensível, porque a abnegação individual e pontual não soluciona, geralmente, problemas sociais de grande escala (que me perdoem o Ghandi, o Martin Luther King, o Hassan Fathy, e outros que provaram o contrário, mas falo em termos gerais). É perfeitamente aceitável que o cidadão comum se queira refugiar deste caos em que vivemos. O que não é aceitável é que a sociedade, no seu todo, continue a caminhar para este abismo, sem que haja uma tomada de consciência e de atitudes no sentido contrário. É claro que o urbanismo pode resolver uma parte importante do problema, ao criar estruturas que melhor permitam a vida social em todos os seus aspectos - conforto, funcionalidade, segurança, interacção social, etc. Mas quem faz o urbanismo não são os urbanistas, mas as opções políticas de fundo e específicas. Continua-se a descuidar este aspecto, criando amalgamas de betão, para onde as pessoas são lançadas (as que conseguem, porque as outras remedeiam-se em condições precárias e opressoras). Depois cria-se os condomínios fechados, onde, em escala reduzida e contida, se tenta gerar tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse no nosso espaço urbano. Mas, mesmo que esses condomínios fechados tivessem uma óptima qualidade (o que, frequentemente, não é o caso) um conjunto de belas frases não faz um bom poema. Ou, como dizia Hassan Fathy (que já referi atrás) a beleza de algo não resulta da sua forma, mas antes das forças que se unem para lhe darem vida.
Da reconhecida verborreia que impera no mundo do futebol, lembro-me de uma frase que associo a tudo isto: “o nosso clube estava à beira do abismo, mas agora demos um passo em frente”. E de bola percebemos nós!

08 junho 2005

18 _ terra à vista

Há alguns dias atrás passei pelo castelo de Paderne e verifiquei que a obra de consolidação e recuperação das muralhas daquele magnífico monumento está, finalmente, em curso e a um rítmo ambicioso.
O Castelo de Paderne (ao qual já tenho feito referência, algumas vezes, nestas crónicas) é um monumento de carácter singular no panorama nacional, e apresenta (ou apresentava) um estado de conservação muito aquém do tranquilizante e muito além do indignante. Trata-se de uma edificação militar, de carácter defensivo, erigido nos finais do séc. XII, durante a reconstrução e consolidação da “linha da frente” da dinastia Almoada (ainda que haja alguns indícios de que a sua construção original seja, de facto, do período Almorávida). Essa “linha da frente” foi erguida no curto período de cerca de 40 anos, e definia o último reduto da ocupação moura na Península Ibérica, numa sequência de fortificações que incluíam, ainda, Silves, Niebla, Sevilha, etc., até ao abandono definitivo dos mouros, em 1259. Tal como aconteceu com a maioria das fortificações mouras, o reino português adaptou-a ao seu próprio uso, e manteve-a activa, ainda que a inevitável sobreposição da religião vigente tivesse consequências na própria edificação - em Paderne, isto prende-se, principalmente, com a edificação de uma capela cristã, no seu interior, em sobreposição ao templo muçulmano pré-existente.
Mas o que torna o castelo de Paderne único é o facto de este ser o único castelo em território nacional a ser totalmente construído em taipa. Na circunstância, trata-se de taipa militar, cuja particularidade que a define reside na adição de cal à composição final da terra utilizada, e na maior expessura dos muros. Esta, no caso de Paderne, é de 1,98m - ou seja, 3 vezes a medida do côvado (66cm) utilizada na época e naquela civilização.
Há uma série de pormenores interessantíssimos sobre este monumento, que não interessa referir aqui, porque a razão que me leva a escrever sobre ele é a da intervenção que sofre, no presente.
Nos anos de 1999 e 2000, integrei a equipa projectista (liderada pela arqª Teresa Beirão) que desenvolveu o estudo e projecto para a intervenção no monumento, propriedade do IPPAR, após concurso público que, obviamente, venceramos. Por uma série de peripécias (daquelas que nos fazem soltar o tal lamento/revolta “isto só neste país...!”), o projecto não foi terminado, e a equipa técnica foi “dispensada”, passando o IPPAR a tomar nas suas mão a condução do projecto e de toda a intervenção.
Foi então adjudicada a obra a uma empresa de construção que está, neste momento, a proceder aos trabalhos de taipa. Não é uma empresa com muita experiência nesta técnica, mas, apesar disso, protagonizaram uma das obras que me suscitou mais curiosidade e interesse nos últimos tempos - a construção (réplica) de um troço da cerca Fernandina, em Lisboa, no empreendimento junto ao Chiado. Esta obra do Chiado tem projecto de alguém que é considerado um deus-vivo da arquitectura - o arqº Siza Vieira. Não deixa de ser uma alegria para aqueles que, como eu, tentam divulgar a qualidade da construção em terra crua, o facto de tal personalidade ter decidido construir algo com este material. É certo que se trata de um elemento quase histórico-decorativo, e não da utilização das potencialidades do material na construção, mas tal ocorrência não deixa de ser importante.
A tal empresa, dizia eu, procedeu já, em Paderne, a parte dos trabalhos de taipa, com o preenchimento das locas (enormes e devastadoras) das muralhas, e o levantamento de alguns troços de taipa, sempre com a finalidade restrita de consolidar e dar leitura, e não de refazer o desaparecido (de resto, esta atitude tem muito em comum com a que a nossa equipa projectista tinha adoptado, em 99). Mas os trabalhos ainda vão prosseguir até meados de Agosto, com mais taipa para ser feita e com preenchimento de locas, nalguns casos utilizando um sistema desenvolvido pela empresa em questão, de projecção de terra para o preenchimento dos ôcos de expressão horizontal, que se afiguram de difícil compactação pela via “convencional” da taipa.
Por estas razões, ou apenas para conhecerem um magnífico monumento do nosso património (este castelo é um dos que figuram na bandeira nacional), recomendo vivamente uma visita ao castelo de Paderne nos próximos tempos. No dia em que por lá passei, cruzei-me com o arqº Fernando Pinto - colaborador deste jornal e arquitecto da terra desde longa data - e vários outros arquitectos e engenheiros já por lá passaram, e a equipa de empreitada tem todo o prazer em receber todos esses técnicos, e todos aqueles que possam contribuir, com um olhar crítico, para aquilo que por lá se faz e se experimenta. É de ir!
Vem lá outro fim-de-semana prolongado. As romarias ao Algarve serão comuns. É só sair do IP1, alguns quilómetros antes de chegar a Albufeira, na saída para Tunes, e seguir as indicações de Paderne e, depois de chegar à localidade do Purgatório, seguir as indicações do Castelo.
Bem sei que isto mais parece um daqueles artigos de revista de viagens, tipo “vá para fora cá dentro”... Mas olhem que vale bem a pena, sobretudo neste momento, para presenciar a recriação de uma prática construtiva, memória cultural em riscos de amnésia generalizada...

01 junho 2005

17 _ os sujos que paguem a crise

Nos dias que correm, há um grupo de palavras que domina as conversas e as atenções. Nesse grupo, do universo da economia e finanças, encontramos expressões, perante algumas das quais já trememos, tais como défice, impostos, IRS ou IVA.
É precisamente sobre esta última sigla (IVA), que me ocorre abordar um assunto de longa data nas andanças da ecologia e da sustentabilidade.
Não temam, que não vou aventurar-me em questões técnicas de economia, matéria de que percebo muito pouco, nem sequer me vou dedicar à crítica ou elogio fácil e leviano da situação e das medidas preconizadas para a encarar.
Apresento-vos apenas uma teoria, cuja humildade, que a minha profissão insolente ainda me permite ter, me impede de sentir competências para defender ou atacar de forma consolidada. Ainda assim, parece-me interessante no seu raciocínio, pelo que a trago a lume.
Defendem alguns ecologistas - nomeadamente os mais ligados ao activismo desta corrente, com uma componente mais social (ou política, se quiserem) - que haja uma diferenciação na taxação de IVA dos produtos ditos e considerados ecológicos e não agressores do ambiente.
Dizem eles que, sendo o IVA uma transferência “irreal” de dinheiros, no panorama do mercado, poderia este imposto ser veículo de mais-valias para a questão ambiental.
O raciocínio é o seguinte: O IVA é dinheiro que “não existe”. O produtor recebe-o ao vender os seus produtos, mas vai devolvê-lo ao estado, aquando das declarações de rendimentos. Fica a zeros, neste capítulo. O intermediário vai pagá-lo, ao comprar os produtos, mas vai recuperá-lo, ao declarar quanto do seu investimento diz respeito a esta taxa. Mais tarde, vai vender o que comprou, cobrando IVA, que, tal como no caso do produtor, vai ser devolvido no processo de declarações, ficando, novamente, a zeros. Já o consumidor, esse sim, fica a menos de zeros, porque vai pagar IVA em todos os artigos que compra, mas só numa gama muito restrita de produtos é que poderá recuperar o valor que lhe diz respeito. Está, por isso, a pagar uma sobrecarga no preço de um produto, sem recuperação desse montante.
A proposta dos supra-citados ecologistas é a de reduzir drasticamente (ou mesmo anular) a taxa de IVA sobre os produtos ecológicos e amigos do ambiente. Na prática, dizem, tudo ficaria na mesma a montante - o produtor não cobraria IVA, mas também não o declararia, não tendo, por isso, que o retribuir (ficaria a zeros), e o intermediário também não pagaria nem cobraria IVA, nem na compra de produtos, nem na sua revenda, respectivamente (ficaria, também, a zeros). Quem ganharia, com este processo, é, a jusante, o consumidor, a quem os artigos chegariam mais baratos (em 21%, segundo parece que vai passar a ser), por ausência de pagamento de IVA. Os poucos que, até aqui, podiam recuperar o IVA pago, deixam de o poder fazer, mas também deixam de o pagar, ao adquirirem esses bens, pelo que fica tudo na mesma. Os muitos que actualmente não podem recuperá-lo, ficam a ganhar o valor que pagam, actualmente, por aquela taxa, que deixariam de pagar.
E para que é que isto serviria? Ou, noutra forma de ver as coisas, porque raio se haveria de fazer uma coisa destas para uns produtos e não para todos?
As razões são de duas ordens: Por um lado, é preciso ter em conta que os materiais ecológicos (e, sobretudo, os biológicos, no que diz respeito a géneros alimentares, por exemplo) são, geralmente, de fabrico mais oneroso, pelo que chegam ao mercado a preços mais elevados. Ao anular-se a taxa de IVA, estar-se-ia a reduzir consideravelmente o preço final destes produtos, tornando-os mais acessíveis e competitivos e, consequentemente, mais procurados. Por outro lado, ao criar-se esta melhoria no escoamento desses produtos, estar-se-ia a criar melhores condições para atrair novos produtores de artigos ecológicos e, inclusivamente, a aliviar um pouco o fardo dos subsídios, provenientes de dinheiros públicos, que é, actualmente, a única viabilidade económica, em muitos casos, para a produção ecológica. Numa perspectiva ambiciosa, poderia até prever-se a vantagem económica em produzir de forma ecológica, levando ao abandono, por parte de muitos produtores, de práticas menos responsáveis.
Se imaginarmos um cenário em que os produtos de cariz ecológico e ambientalmente são tiverem um custo de venda ao público equiparável a produtos semelhantes mas não-ecológicos, facilmente se pode concluir que o consumo de produtos menos poluentes e nocivos subirá em flecha e, contas feitas, quem ganha é o planeta e todos nós.
Obviamente que este raciocínio é aplicável ao universo da construção, quer a nível da produção de materiais, quer a nível das técnicas construtivas, quer a nível das práticas de obra. Seria de todo disparatado que os materiais de construção ecológicos estivessem isentos de IVA? Os únicos benifícios (leia-se, cruamente, incentivos!) que existem, actualmente, para quem recorre a opções mais ecológicas, é a dedução fiscal na aquisição de meios de energia renováveis. Não seria possível que as empresas de construção que recorressem a práticas de estaleiro mais ecológicas e a reduções de energia intrínseca de uma obra (através, por exemplo, da redução do peso do transporte de materiais na energia consumida) tivessem um outro tipo de enquadramento na cobrança deste imposto? E as próprias técnicas construtivas não poderiam estar classificadas, segundo uma perspectiva ecológica, de forma a reduzir a incidência desta taxa no custo final de uma obra? (uma construção em taipa, por exemplo, não poderia estar isenta de pagamento de IVA, na oneração da mão-de-obra?)
É claro que, tal como referi atrás, não sou um especialista em matérias de economia e finanças, nem sou, de forma alguma, autor do raciocínio que atrás apresento. Ele poderá ser perfeitamente absurdo, segundo critérios técnicos, e até facilmente rebativel por especialistas.
Mas só aqui entre nós... não soa nada mal, pois não?
É que hoje é dia da criança, e apetecia-me acreditar que os nossos filhos vão ter um mundo que apeteça...

20 abril 2005

16 _ fim-de-semana na terra

Antes de mais, as minhas desculpas pela falta de crónica na semana passada...!
Mas é precisamente sobre as razões que me impediram de a enviar, que agora escrevo. O imprevisto deveu-se ao infindável trabalho em que estive envolvido, na organização e execução de um curso denominado Oficinas da Primavera de construção com terra, no âmbito das acções de difusão e promoção desta(s) técnica(s) construtiva(s), levadas a cabo pela associação a que pertenço - o Centro da Terra.
Foi no passado fim-de-semana (9 e 10 de Abril) que se realizou este pequeno curso de abordagem à construção em terra crua, que decorreu na Universidade Nova, ali para os lados da recém-eleita-a-cidade Costa da Caparica, e que foi um êxito que superou as expectativas. Desde já, todas as vagas (20) foram rapidamente preenchidas, havendo quase um número igual de pretendentes que tiveram de ficar de fora (por razões da orgânica do próprio curso) e o interesse manifestado pelos participantes foi notável, dando toda a legitimidade e pertinência a iniciativas desta índole.
A construção com terra crua prende-se com outras temáticas mais abrangentes e menos especializadas, tais como a sustentabilidade, a discussão em torno da ecologia, a manutenção de patrimónios e identidades culturais, etc. Não será de estranhar, portanto, que seja um assunto que se revista, mais e mais, de um interesse por parte de diversos sectores, num cenário inimaginável para quem, há alguns anos atrás, se debruçava sobre estes assuntos, de forma “insolente” e solitária. Não obstante o alargamento desse interesse a outros sectores, a esmagadora maioria dos participantes neste curso era constituída por arquitectos - jovens, sobretudo (e saudavelmente). De engenharia, design, artes visuais, jornalismo e economia, eram os outros participantes, num grupo que permitia um conjunto de diferentes perspectivas sobre um mesmo tema, situação extremamente enriquecedora para a discussão.
Na manhã de sábado, teve lugar uma série de conferências, apresentadas por especialistas na área, com os seguintes temas: “Construção e Ambiente” (arqª Vera Schmidberger), “A utilização da terra como material de construção” (arqº Miguel Rocha), “Técnicas de construção com terra crua” (arqª Maria Fernandes), “A construção com terra na actualidade” (arqº Miguel Ferreira Mendes), “Técnicas de construção com terra em Portugal” (arqª Mariana Correia) e “Revestimentos em paredes de terra” (Engª Paulina Faria Rodrigues). Foram, assim, abordados alguns dos principais assuntos relativos a esta(s) técnica(s) construtiva(s), permitindo traçar um panorama geral para um melhor entendimento desta realidade, antes de se passar à componente prática.
Na tarde de sábado, o primeiro módulo prático foi a análise de terras (arqº Miguel Ferreira Mendes / arqª Catarina Pereira), onde foi executada uma série de testes de terreno e de laboratório que permitem a análise de uma terra, a fim de se traçar um perfil exacto desta, para que se possa definir em que termos se pode utilizá-la, com recurso a qual das técnicas construtivas, com que possíveis intervenções correctivas e com que cuidados. Ainda que se trate de um processo menos apaixonante do que a construção propriamente dita, esta fase de análise é essencial, já que permite conhecer a fundo todas as capacidades e pontos fracos de uma terra, condição essencial para que se possa tirar o maior partido do seu uso, e evitar resultados menos satisfatórios. Os testes realizados foram, sobretudo, de aplicação no terreno e de observação factual, havendo ainda alguns de carácter laboratorial e de observação mais científica.
Durante o resto da tarde de sábado e no dia de domingo, os participante puderam experimentar, em primeira mão, duas técnicas de construção em terra crua: no módulo de construção em adobe (arqº Eduardo Carvalho / arqº Luis Gama / arqº Francisco Freire), foram executados alguns adobes, bem como a elevação de uma pequena alvenaria e ainda algumas experiências com arcos, tudo com utilização de adobes; no módulo da construção em taipa (arqº Henrique Shreck / arqº Miguel Rocha), foi estudada a montagem e desmontagem do taipal, com as peças que o constituem, e foi construido um pequeno troço de parede em taipa.
A vontade de prolongar as experiências era notória, por parte dos participantes, mas a duração prevista para o curso não permitia mais do que uma abordagem introdutória à realidade da construção com terra crua.
Ao contrário dos materiais industriais, que são rigorosamente idênticos de obra para obra, a terra tem características que podem variar enormemente de local para local. Daí que nenhum curso, por maior que seja, possa ensinar as regras da construção com este material, porque, pura e simplesmente, não há soluções pré-definidas, mas apenas um conjunto de conhecimentos técnicos que se cruzam e confrontam em cada caso, para permitir a escolha da opção mais acertada para cada situação. Ou seja: a parte científica e exacta é importante (e até fundamental - na análise das terras e dos casos e no conjunto de regras básicas do “o que não fazer nunca”), mas a opção a tomar na intervenção preconizada é resultado da sagacidade, bom senso, conhecimento técnico, inteligência, e experiência do técnico. E é isso que confere à construção em terra um estatuto de algo vivo e em constante reinvenção. E será essa a grande razão da paixão por estas técnicas que interagem com os seus utilizadores, numa simbiose que tem tanto de dramático como de romântico.
O Centro da Terra está de parabéns por esta iniciativa, e prepara já um dos maiores eventos de sempre em Portugal, no que diz respeito à construção em terra - o IV SIACOT (Seminário Ibero-Americano de Construção com Terra). Decorrerá no início de Outubro, aqui para os nossos lados (no Convento da Orada, em Monsaraz), e contará com cerca de duas centenas de participantes de todo o mundo ibero-americano, numa série de conferências, debates, exposições e visitas, que permitirão discutir as evoluções, investigações, considerações e problemáticas que todos os especialistas desta área têm desenvolvido, a nível internacional. No primeiro dia deste acontecimento, terá lugar um outro curso de construção com terra, à semelhança do que aqui vos relatei, mais uma vez organizado pelo Centro da Terra (ver informações em www.centrodaterra.org). Só espero ter tempo para escrever as crónicas do diário do sul, por esses dias...

23 março 2005

15 _ verdes são os campos

Na crónica anterior referia-me à intervenção junto das muralhas, na zona entre a Porta de Aviz e a Porta da Lagoa. Falava da relevância de tal processo de remodelação do tecido urbano e, entre outros aspectos, foquei a importância do carácter pedonal e de lazer do espaço a surgir, com alusão à criação de possíveis zonas verdes, não anunciadas pela autarquia, mas de forte pertinência e, tendo em conta a inteligência da equipa projectista, a ter em expectativa.
Hoje refiro-me à importância crucial de que se reveste a existência de espaços verdes (sobretudo arborizados) dentro das malhas urbanas, de pertinência proporcional à dimensão da mancha urbana.
Em cidades com forte cariz cosmopolita, de enquadramento civilizacional de primeira água, tais como Londres ou Copenhaga, a multiplicidade de espaços verdes e a sua cirúrgica localização (ou a disposição do tecido urbano face à sua pré-existência) é uma característica de refinada sofisticação urbanística e, consequentemente, social. A existência de uma série de zonas de lazer, de carácter vegetal e arborizado, com implantação pontual, cria uma série de relações urbanas e de práticas sociais que incutem uma substancial melhoria dos níveis de vida dos cidadãos, da qualidade ambiental, das relações sociais a nível de proximidades e de práticas de grupo, bem como uma redução de alguns dos aspectos negativos das grandes cidades e das extensas superfícies construídas.
A um nível mais perceptível, será evidente a referência ao carácter lúdico dos parques e jardins públicos, estendendo essa potencialidade à própria interferência na ocupação dos tempos livres dos cidadãos em geral, com destaque para as crianças e os idosos.
Numa leitura mais técnica, assinale-se a criação de marcos na paisagem urbana, com a consequente articulação do tecido urbano, pontuado, aqui e ali, por estes acontecimentos urbanísticos. Um pouco à semelhança do que se passava na refinada arte barroca da concepção de jardins, em que estes eram dotados de pontos de tensão - apelidados de folies - que faziam a pontuação do espaço ajardinado, definindo elementos que se conjugavam, na própria criação de percursos e de tempo de utilização do espaço. Será o factor tempo a intrometer-se na arquitectura - que é mais conotada com a exclusividade do factor espaço - através da definição do ritmo de percursos e de pontos de passagem ou de permanência. A introdução de parques e jardins nas cidades densas é um pouco o negativo homólogo desta prática - aqui, ao contrário do que se passava no jardim barroco, o espaço verde será a pausa, a neo-folie.
No campo social, pense-se na abstracção individualista com que a nossa sociedade ocidental contemporânea consome avidamente os seus minutos, entre a forma mais rápida de ir de um ponto a outro, a fuga isolacionista do automóvel, a fortificação do espaço individual (com o expoente máximo no mea culpa dos condomínios fechados) a falsa convivência estéril dos serões televisivos, a delegação das responsabilidades cívicas e até familiares em instituições que nos substituem e nos permitem a amnésia terapêutica, e facilmente se chega à conclusão da enorme importância que terá, neste campo, a existência de zonas verdes, espaços de convívio e interacção social privilegiados.
Como se não bastasse, ainda há as evidentes vantagens ambientais, quer ao nível da melhoria da qualidade do ar, quer ao nível da redução e da quebra de continuidade da obcessiva impermeabilização dos solos urbanos. As manchas verdes, não só permitem um melhor escoamento das águas pluviais, como este é mais benéfico, porque, ao invés de se estar a captar as águas para o sistema de colecta e canalizá-las para as descargas, há uma infiltração directa e local, com a consequente melhoria dos níveis freáticos e de humidade dos solos, com influência a nível das bacias hidrográficas.
Depois, de forma menos perceptível, as zonas verdes acabam por ser pontos de convergência de percursos e de “migrações” a nível urbano, funcionando como verdadeiros nós de tráfego pedonal (isto quando bem estruturadas e implantadas segundo um sistema coerente, naturalmente).
Já que falei em Londres, aconselho todos os que passarem por esta magnífica cidade a “perderem” algum tempo numa visita ao fantástico Hyde Park, onde poderão esquecer-se de que estão numa das maiores metrópoles do mundo, e onde verão uma quantidade enorme de pessoas a praticarem desporto, a passearem, a conviverem, e a fazerem tudo aquilo que apenas uma cidade com elevada qualidade de vida permite. Mas é bom dizer-se que o Hyde Park, apesar de ser o maior e o mais conhecido parque de Londres, é apenas uma das imensas zonas verdes que aquela cidade oferece.
(As três primeiras palavras da próxima frase acontecem com demasiada frequência...!)
Em Portugal, infelizmente, a visão dos responsáveis pelo planeamento urbano está muitas vezes subjugada a “inevitáveis” (como eles próprios apelidam) questões económicas. É tão grande a lista de verdadeiros atentados nesta área, que seria necessário escrever uma crónica diferente em cada exemplar desta edição do Diário do Sul para fazer um apanhado sucinto da situação. Mesmo nas áreas de expansão e nos grandes loteamentos e urbanizações, a preocupação com as zonas verdes é, na realidade, um luxo só para raros casos. A não ser a tal coisa horripilante dos condomínios fechados (um destes dias ainda lá vamos...), que oferecem zonas verdes de “exclusividade higiénica”, onde uma das facetas mais interessantes destes equipamentos (a relação social) está confinada a uma perspectiva elitista, logo, desprovida da sua intenção de génese.
Em Évora temos dois casos. Ou melhor, neste capítulo, como em tantos outros, temos duas Évoras - uma dentro das muralhas e outra fora delas. No exterior há uma carência clara de espaços verdes de qualidade com uma escala urbana e adequada à sua localização e zonas de acção. Atenção que eu não falo de umas árvores que por ali ficaram depois das máquinas terem terminado os prédios. Falo de espaços qualificados, com intencionalidade e capacidade de diálogo no contexto urbano em que se inserem. E com uma relação extrínseca entre eles, de modo a resultarem no tal conjunto de pontos e vírgulas da paisagem contruída, a tal pontuação da malha urbana, de forma a que o todo ganhe uma coerência e uma continuidade, em vez da justaposição de nadas. Tal como em ocasiões anteriores, refiro a notável excepção da malagueira - que é, de facto, o único sector de cidade extra-muros com um projecto urbanístico de grande coerência e continuidade, no diálogo com a envolvente e com a sua própria morfologia e estrutura. E não me refiro sequer à qualidade dos edifícios em si, mas apenas à sua inter-relação e à estrutura urbana que os articula, juntamente com os tais espaços verdes, e ao carácter coeso, dialogante e extrovertido daí resultante, pouco comum na maioria dos bairros cá do burgo. Assim se vê a diferença entre expansões planeadas ou “anarquizadas”.
Mas falava eu das “duas Évoras”. Ora, no centro histórico, o cenário é bem menos cinzento do que o anterior. De facto, não há uma quantidade considerável de zonas verdes, mas a maior parte das pequenas que existem tem um charme e um diálogo com a malha urbana perfeitamente espantosos. É de lamentar que a maioria das pequenas praças que, de forma tão naturalmente perfeita (passe a sublimação), articulam a magnífica estrutura urbana do centro histórico, sejam, com o passar do tempo, despojadas da sua função social e de lazer, para aí surgir mais um parqueamento automóvel. Desta questão falarei noutro dia. Para já fica a referência à simplicidade genial com que as pequenas praças e zonas verdes (no melhor cenário, os espaços que são ambas as coisas, em simultâneo) se alimentam da malha urbana e a criam, numa simbiose perfeita de espaço-envólucro, cheio-vazio.
Mas devo confessar que a minha vontade de escrever esta crónica veio pelo desejo de elogiar um espaço magnífico dentro desta cidade - o jardim público e, em particular, a mata que lhe é adjacente. Poucas cidades se poderão dar ao luxo de ter uma mancha verde da dimensão e qualidade desta, tendo em conta que a sua proporcionalidade deverá ser medida com referência ao centro histórico. Mas penso que qualquer comentário será redundante, pois basta um pequeno passeio por lá para se perceber tudo.
Seria bom que as novas intervenções na cidade também me dessem vontade de escrever crónicas de elogio...

09 março 2005

14 _ a seca chegou às docas num dia assim

No dia em que foi publicada a crónica anterior a esta, a primeira página deste jornal era ocupada pela notícia que dava conta do projecto municipal de reconversão da faixa junto à muralha de Évora, entre as rotundas conhecidas como Porta de Aviz e Porta da Lagoa.
Sobre o programa desta intervenção, afiguram-se-me dois comentários:
O primeiro é de grande satisfação. Não tanto pela que julgo ser a motivação principal da autarquia (já lá iremos), mas antes pelo resultado urbanístico que daí resultará. Quando se analisa a zona em questão, chega-se à rápida conclusão de que se trata de toda uma área que, apesar da localização privilegiada, pouco mais apresenta do que a desolação e o ruído visual e urbanístico de um baldio, completamente descaracterizado e desinteressante. Não só assim é, como se pode, inclusivamente, falar de um “espaço-tampão” na fluência entre as zonas intra e extra-muros.
Há, em Évora, uma clara e, no meu entender, nefasta dissociação entre o preservado e carismático território do chamado centro histórico, e a zona amorfa que o circunda e se estende por todo o tecido urbano exterior às muralhas. Existe aqui uma clara força centríputa, natural nas cidades que possuem um centro histórico bem definido e com características fortes, sobretudo naquelas que ainda não sofreram grandes expansões acompanhadas por planos de ordenamento audazes e abrangentes que tenham dado origem a novos pontos de tensão urbanística e, eventualmente, até a novos centros. Essa força centríputa acentua a convergência da realidade urbana para o seu centro, o que, per si, não é uma contrariedade, mas, no caso eborense, o problema é que deixa a sua envolvente com um certo carácter de espaço restante, germinado por bairros-dormitório e loteamentos incoerentes, quase sempre com a sórdida preocupação da expressão mimética do “típico-tradicional-castiço eborense”. Como alguns se lembrarão do que escrevi há uns tempos atrás - sobre a questão da ausência de intervenção arquitectónica e urbanística de carácter contemporâneo em Évora e da consequente pseudo-mumificação do edificado - a produção de “casinhas” (porque outro termo não poderá ser aplicado) a imitarem, mal e grosseiramente, os interessantissimos edifícios do centro histórico, não só cria e reflete a ausência de desenvolvimento cultural e técnico, como cai na inevitável armadilha de criar algo que, como diz o povo, “nem é carne nem é peixe”.
É por isto que o anúncio da intervenção junto das muralhas se reveste da maior importância e é motivo de exultação para todos os que tratam de assuntos de edificado. Para mais, se se tiver em conta o curriculum e a reconhecida sagacidade do arquitecto anunciado para projectar a intervenção, só se pode esperar um passo importantíssimo (e que urgia) na definição e na tomada de consistência do tecido da cidade.
O primeiro motivo de interesse prende-se com a criação dos equipamentos e serviços a implementar, que poderão vir a dotar esta cidade (que está culturalmente moribunda) de uma nova energia, essencial ao carácter cosmopolita que qualquer capital de distrito da europa do século XXI tem a obrigação de oferecer. A integração do Forte de S. Bartolomeu numa nova malha vem atenuar o desencanto que a degradação daquele monumento transmite. A criação de uma área ampla, com multiplicidade de espaços e, sabiamente, com preferência para o uso pedonal e de lazer, constitui outro dos pontos de grande interesse e pertinência deste projecto. Espera-se a criação de zonas verdes, que tanta falta fazem e tanto prazer e funcionalidade proporcionam, sendo um dos indicadores de verdadeira modernidade na concepção de tecidos urbanos (veja-se o exemplo de cidades como Londres, Copenhaga ou Paris). Mas, sem dúvida alguma, a maior mais-valia desta intervenção é a criação de uma zona de transição entre a cidade extra-muros e o centro histórico, que poderá vir a funcionar como charneira de metabolismo urbano, permitindo a consolidação social (e, num cenário semi-onírico, urbana) do território exterior. É essencial que a cidade transborde para fora deste colete de forças que são as suas muralhas - grandes demais, como dizia, metaforicamente, Vergílio Ferreira, que por cá esteve 14 anos. E isto não implica malefícios de espécie alguma para o seu interior. Antes pelo contrário, porque distribui a carga de esforço do metabolismo urbano. E a melhor forma de honrar e destacar a beleza do centro histórico é não o copiar, mas antes dar-lhe o seu carácter de único e genuíno. Bom seria que outros pontos, tais como o Rossio (para o qual há tanto tempo se fala de uma intervenção com intenções da mesma estirpe) fossem objecto de remodelações profundas, que estendessem esta saudável promiscuidade entre o dentro e o fora das muralhas, anulando esta postura de sagração do antigo, herdeira de políticas obsoletas e nefastamente prolongadas até aos dias que correm, contrariando o espírito inovador que, outrora, fermentou os fazedores das nossas actuais antiguidades.
A minha segunda observação relativamente ao projecto da zona das muralhas prende-se com o negativo da fotografia atrás captada. A criação de uma zona destinada a bares e a restaurantes encerra, em si, uma faceta estagnante e, de certa forma, um mecanismo paradoxal. Desde logo sobressai a contradição em dois pontos: Primeiro, se se quer criar uma zona de transição “entre dois territórios”, de forma a tornar mais fluída a vivência cosmopolita da urbe, como é que se cria uma zona que concentra toda a actividade de um sector? Não será isto a antítese da fluidez? Não será apenas a transladação do problema? Ou, pelo menos, a ausência de uma nova solução? Em segundo lugar, se se quer (como espero que seja, pelo que digo ao longo destas linhas) retirar aquele carácter sagrado e intocável ao centro histórico, através da sua maior permeabilidade e relação com o exterior, porque é que se está a dar-lhe um tratamento especial, alegando a sua impossibilidade de conter espaços de animação nocturna? Não será isto estar a dar a última pincelada de óleo, antes de enfaixar a múmia?
A concentração de actividades num só espaço gera uma série de problemas e carências nesse espaço, e uma série de lacunas nos espaços sobrantes. A dinâmica urbana de uma cosmópole resulta, precisamente, da heterogenização do seu tecido. É certo que há zonas com ocupações de tendência privilegiada e com utilizações preferenciais. Mas isto não pode funcionar em absoluto e levado ao exagero da exclusividade. Todos nós sabemos que a questão da animação nocturna é um pau de dois bicos, de resolução delicada. E todos nós (exceptuando alguns boémios radicais) sentimos que todos têm direito ao seu descanso imperturbável e a condições de conforto no seu lar. Mas isso não pode servir de motivo à tomada de medidas extremas, que se afiguram mais como imposições ciclópicas do que como criação de melhorias de condições. Os bares e estabelecimentos nocturnos causam ruído e problemas diversos. Mas há casos em que, mau grado a sua localização delicada, os bares tomaram medidas que atenuam, ou até dissipam estes efeitos. São poucos, é certo, mas, se calhar, são aqueles geridos com mais cuidado e responsabilidade, e que tomaram as devidas medidas para estarem em conformidade com a lei e com o eticamente correcto e justo. Porque é possível, na esmagadora maioria dos casos, intervir nos edifícios e levar a cabo práticas correntes de forma a não criar problemas de perturbação do ambiente nocturno. Há é poucos que o querem fazer. Que tal, então, ser mais rígido no licenciamento dos estabelecimentos (e é quando eles estão licenciados...) em vez de os juntar todos num enorme saco de lixo e os despejar ali ao pé da rotunda da Lagoa? A fruição da cidade, a sua dinâmica e fluidez, para mais tendo em conta as suas dimensões, precisam de um jogo mais articulado de implantação de acontecimentos sociais, e não de uma espécie de guetos temáticos. Até para que estas docas secas não se tornem uma verdadeira seca...
Ainda assim, retomo o início desta crónica, para reafirmar a satisfação pelo anúncio da intervenção urbanística na zona em questão. Até porque, a bem de todos, a finalidade da intervenção será a todos os níveis de que falei atrás, e não apenas com vista à implantação de bares e restaurantes.
...Pois não...?!

02 março 2005

13 _ ver ao longe

No seguimento das crónicas anteriores, torno a abordar a temática da arquitectura do ponto de vista energético, com a sua vertente mais tecnológica – a arquitectura bioclimática – e aquela de cariz mais filosófico e abrangente – a arquitectura ecológica.
Nos dias que correm, a arquitectura bioclimática tem uma importância e uma pertinência flagrantes. Conforme tenho afirmado nestas linhas, por entre muitos outros temas que reportam ao grande universo da arquitectura, esta vertente mais sustentável tem inúmeras características, que não será demais relembrar: logo à partida, é uma atitude com maior abrangência e mais inteligente, já que trabalha com os elementos naturais e com as suas condicionantes e características, no sentido de melhor aproveitar as suas vantagens e potencialidades e de minimizar os seus efeitos negativos ou de melhor nos fazer acomodar a eles, aumentando a qualidade de conforto e reduzindo o esforço e os consumos para o fazer. Para além disto, é uma forma de percorrer o caminho da concepção arquitectónica que, ao contrário do que os menos avisados poderão supor, se reveste de um enorme cariz tecnológico e científico. Não obstante esta sofisticação, outra das suas características é o facto de tornar um edifício mais barato, sobretudo na sua utilização, ainda que o possa também ser (dependendo das soluções construtivas e dos materiais adoptados) na sua construção. E ainda, no que será a qualidade mais interessante e universalista desta arquitectura, é uma postura que propõe e cultiva a mentalidade e a intervenção de carácter sustentável.
A sustentabilidade é a forma de satisfazermos as nossas necessidades sem comprometermos a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações vindouras. Ou seja, viver bem e deixar que todos os outros o possam vir a fazer. Que outra conduta será menos egoísta, sem recorrer à abnegação? De facto, a noção de sustentabilidade não preconiza nenhuma espécie de contenção nos desejos ou nas ambições presentes, apenas trabalha com soluções e princípios que não são autistas no seu processo, mas que se inclinam para a visão abrangente do espaço total. No fundo, lição máxima de respeito pelo próximo – neste caso a palavra próximo também mantém o seu significado cronológico, já que nos referimos aos recursos para as gerações vindouras.
Oscar Wilde, mente de eleição e personalidade de observação social contundente e de humor refinado, referia-se à consciência como “o medo de que alguém nos possa estar a observar”. Ora, no caso da sustentabilidade, e segundo o aforismo daquele autor, os causadores dos nossos possíveis problemas de consciência não existem, já que seriam a geração futura - nem na nossa tradição judaico-cristã, se pressupõe que os nossos descendentes já existam e que possam estar a presenciar as nossas vidas, daí que o caso se dilua na sua própria inexistência.
Porém, numa certa fatia da sociedade civil, cresce uma tendência para a sensibilidade a estas questões. Não se trata de um fenómeno de ordem subversiva, mas antes de uma espécie de inevitabilidade intelectual, tendo em conta o evoluir do mundo e dos seus problemas, nomeadamente os de nível ambiental. É comum o finalizar do processo de varrer a casa com um simples arremesso do lixo pela porta fora. Ninguém pensa sequer em fazer de outra forma. Mas quando o lixo nos atrapalha a entrada, por se acumular em demasia, apercebemo-nos de que teremos de passar a dar-lhe outro destino ou outra solução. E as nossas portas estão cheias de lixo... Não será necessário citar qualquer exemplo para que toda a gente saiba que o mundo se debate com problemas graves de poluição, de excesso de consumo energético, de sobre-produção e de excesso de resíduos. O cidadão comum actual (sobretudo dos meios cosmopolitas e do mundo ocidental) está ciente disso. Para se ver o tipo de preocupações e de expectativas em relação ao futuro da sociedade, nada melhor do que analisar a ficção científica produzida na sua própria época. Essa é a forma – ainda que, por vezes, mirabolante – como uma geração olha para o seu futuro, o pressente e imagina. Para dar alguns exemplos concretos, pense-se nos primeiros filmes de ficção científica (que surgiram logo com a invenção do cinema), em que o futuro e a tecnologia eram vistos como algo de positivo, que permitiria um quotidiano hiper-funcional e de contornos perfeccionistas, sendo a máquina um simpático auxiliar da vida no dia-a-dia. Depois, pense-se nos filmes de f.c., de produção americana, do período da guerra-fria, em que tudo gira à volta de invasões da Terra por alienígenas e de ameaças abjectas que pairavam sobre as pacatas populações. Pudera, o medo de uma invasão soviética era uma paranóia omnipresente. Já nos dias que correm, se virmos a maior parte da literatura e cinema de f.c. produzidos, e se excluirmos as fortíssimas tendências sócio-políticas que estão subjacentes às suas mensagens, verificamos que os cenários projectados desse futuro abstracto passam por fome, seca, guerras por posse de água, desastres à escala mundial, e outras visões de contextos pós-apocalípticos, em que esse apocalipse já não é tão vincadamente de teor bélico ou nuclear, mas antes ecológico. Em grande parte dos casos, as narrativas já decorrem, inclusivamente, em circunstâncias posteriores ao abandono do planeta Terra, sendo este considerado esgotado.
Este “à parte” cinéfilo serviu apenas para fazer compreender a visão dramática que existe, actualmente, sobre o futuro e para que, com isso, se perceba porque é que as preocupações de carácter ecológico (entre outras que visam aligeirar esse dramatismo) se espalham pelas sociedades, começando, como sempre, pelos sectores com mais e melhor acesso à informação e de maior nível cultural. Daí que, conforme disse atrás, não se possa considerar esta história de arquitectura com preocupações ecológicas e bioclimáticas como sendo subversivas, mas antes o resultado directo do panorama que tracei. Nem, tão pouco, os indivíduos que se dedicam ou interessam por estes temas são “anormais” ou excêntricos. E daí que os movimentos com estas linhas de preocupação estejam a crescer e a multiplicar-se. Exemplo de tal facto, foi o encontro de três dias que ocorreu em Lisboa, no passado mês de Dezembro, em que uma série de palestras (uma das quais tive a honra de ser convidado a apresentar) permitiu que os milhares de pessoas que passaram pela feira biológica onde este evento se inseriu pudessem tomar contacto com estes temas, e onde se pôde constatar a saudável e crescente quantidade de profissionais, instituições e organismos que trabalham neste sector. A nível da classe dos arquitectos, é salutar verificar-se que existe um número já considerável de técnicos que, mesmo que não pratiquem uma arquitectura bioclimática ou ecológica no seu pleno, debruçam-se sobre estes problemas e têm-nos em consideração na sua metodologia conceptual ou no seu estudo e investigação. A título de exemplo refira-se a existência do Centro da Terra (associação que congrega profissionais ligados à construção em terra em Portugal), do núcleo do ambiente da Ordem dos Arquitectos, da Escola Superior Gallaecia (onde são administrados cursos de arquitectura com uma forte vertente ecológica e sustentável), e de inúmeros gabinetes e profissionais liberais que lidam com estas assuntos.
Note-se que a arquitectura bioclimática ou a arquitectura ecológica não constituem um distanciamento das práticas correntes da arquitectura, nem os profissionais desta área estão menos aptos ou propícios à prática da arquitectura “convencional”. Apenas são detentores de um acréscimo de conhecimentos científicos e técnicos, numa especialidade que tem as mesmas finalidades supremas da arquitectura “convencional”: a concepção de edifícios que dêem resposta às necessidades das pessoas. Simplesmente se acrescenta algumas novas preocupações ao acto conceptual, numa perspectiva de optimização dos resultados, de economia de desempenhos e de minimização de impactos. Porque, tal como referi nas crónicas anteriores, os arquitectos têm muitos outros pontos de intervenção: artística, social, funcional, estética, etc.
Assim sendo, não será legítimo interpretar a arquitectura bioclimática e ecológica como sendo um sub-grupo da arquitectura, mas o contrário, porventura, não será, de todo, descabido, já que a arquitectura “convencional” acaba por lidar com uma parte incompleta do problema de habitar o espaço.

23 fevereiro 2005

12 _ uma cerveja no inferno

O Verão mais quente de sempre! Desde que há registos climatéricos, entenda-se. É isto que se espera para a estação quente deste ano. Ora, sabendo como a fornalha alentejana se esmera, normalmente, em jornadas de impiedade estival, o que será destas paragens por alturas de ir a banhos no ano que corre? Quem o possa, fugirá para o mais brando fervor da costa. Mas quem por cá tiver de ficar, nesta braseira implacável, com que golpes de magia se esquivará a este inferno?
O calor, entenda-se, será um mal menor, dado o cenário que se desenha no horizonte. Porque, se aliarmos às elevadas temperaturas esperadas, o estado de secura dos solos e da vegetação e a escassez de água para combater os “tradicionais” incêndios devoradores (que, neste ano, a serem menos e menores, só se for por restar pouco para arder...), então só mesmo se ele regressar numa manhã de bruma, para nos salvar daquilo de que não nos desembaraçámos. Tão longa a página, tão curta a escrita – assim, o poeta diz o Alentejo. Mas que página negra de carvão se prevê para todo o nosso país, no Verão que se avizinha...
Não, não escapei aos temas da arquitectura para vos falar de ambiente ou de gestão de recursos naturais. Apenas enquadro a paisagem e os consumíveis da civilização no contexto alargado da forma de habitar o espaço. A água, tal como a luz, o calor, o vento, a paisagem, e tudo o que “já lá estava” faz parte do suporte da forma do Homem habitar e ocupar o território, e, portanto, da arquitectura e do planeamento. Como se imagina, o grande problema do momento é o sustento primeiro da vida: a água. É da sua previsível (e já concreta) escassez que falo.
Seria muito pouco lúcido e argumentável sugerir que a máquina civilizacional poderia prever ou controlar as contrariedades ou os excessos refinados do clima. Já seria menos absurdo questionar a implicação do funcionamento dessa máquina nas grandes alterações climatéricas que ocorrem no globo (aquecimento global, efeito de estufa, chuvas ácidas, etc.). Mas não é por aí que o meu discurso segue, por ser essa uma via mais polémica e infrutífera a curto prazo (ao contrário do que a situação exige). Vou restringir-me aos possíveis métodos de combate, não por adivinhação, mas antes por prevenção de possíveis catástrofes, tal como a que se afigura eminente.
Há, no fundo, três tipos de acções que podem ser importantes e eficientes neste contexto: o primeiro, a nível da infra-estruturação de prevenção, e que se pode definir como sendo de grande escala; o segundo a nível dos procedimentos de prevenção, numa perspectiva abrangente e de carácter institucionalizado, numa escala intermédia; a terceira, a nível da reacção e da prática de carácter doméstico, de pequena escala.
No primeiro grupo, pode-se incluir uma série de intervenções no campo da concepção e construção de infra-estruturas que permitam uma gestão eficaz dos recursos hídricos. Falo, naturalmente, da criação de barragens, diques e açudes, que permitam, pelos seus correctos dimensionamento e localização, um controle das perdas de água para o mar, dos níveis freáticos (pelo abrandamento das águas do caudal, o que implica a menor erosão causada e a consequente manutenção de uma cota mais elevada do leito dos rios e, com isso, dos lençóis freáticos das bacias hidrográficas a que pertencem), das descargas de fornecimento, da evaporação (por serem mais pequenas as albufeiras, criando manchas de exposição ao sol com menor área), etc. Mas também da criação de sistemas de possível compensação de caudais, à semelhança do engenhoso sistema de transvaze que existe em Espanha, que permite a rápida correcção das falhas de água num ponto, através do fornecimento, por um ramificado sistema de canais, a partir de um outro ponto que tenha maior abundância dela. Neste grupo, o nosso costeiro país virou as costas à água, e quase tudo está por fazer.
No segundo grupo, é de referir um conjunto de práticas, a montante e a jusante, com um enquadramento mais urbanístico, e de medidas pedagógicas (que as próprias práticas também constituirão). Aqui falo da introdução de sistemas locais, de maior ou menor escala, de reciclagem e reaproveitamentos de águas residuais e pluviais. É perfeitamente viável implementar sistemas de tratamento de águas residuais domésticas (designadas por águas cinzentas) que permitam a sua “purificação” ao ponto da sua reutilização em diversas aplicações, nomeadamente, e num cenário menos sofisticado, na agricultura e lavagens (eu próprio já concebi, realizei e utilizei um destes sistemas, com resultados bastante acima do satisfatório). Num cenário mais ambicioso, poder-se-ia ir ao ponto de tratar de forma semelhante as águas negras, mas aqui joga-se com o factor cultural e psicológico das populações, com previsíveis resistências. (Para clarificar: as águas cinzentas são as águas de esgoto doméstico, com excepção das expelidas pela sanita, que são as águas negras). Há casos de sistemas deste tipo implementados a nível urbano, por vezes em escalas consideráveis, que abrangem um grande número de fogos, com uma eficiência notável e com redução de custos e encargos. Claro que, como sempre, estas soluções que, à partida parecem menos tecnológicas, por utilizarem métodos naturais e biológicos de tratamento, são mais frequentes, precisamente, em países mais desenvolvidos, tais como os Estados Unidos, a Inglaterra, o Japão, a Austrália, etc. Nesta família de acções, de escala intermédia, pode-se ainda incluir a melhor gestão de sistemas de rega e de lavagens, com redução de consumos e com utilização de águas residuais e pluviais, de forma directa ou após tratamento, tal como atrás descrito. A recolha e aproveitamento das águas pluviais é, também, um importante trunfo, quase sempre descuidado no nosso contexto. E veja-se que, apesar do meridionalismo europeu do nosso território, caem quantidades imensas de água nos nossos telhados e nos nossos campos que, pura e simplesmente, são “desperdiçadas” por seguirem directamente para os rios, sem que haja uma preocupação em recolhê-las ou em provocar e acentuar a sua infiltração nos solos.
O terceiro grupo é onde nós, os comuns cidadãos, podemos fazer a diferença. Trata-se de um conjunto de pequenas práticas quotidianas que podem tornar as nossas habitações e postos de trabalho em unidades de economia e gestão efectiva de recursos. Se, na passada crónica, me referi à questão do consumo energético nas habitações, esta questão dos consumos de água está intimamente ligada ao mesmo tipo de preocupações de gestão activa desses consumos. Para que se saiba, a título de exemplo, cerca de 50% da água consumida diariamente numa habitação corrente é utilizada pelos autoclismos. Ora, isto é um dilúvio quotidiano de água potável, sem justificação plausível. Para além da possibilidade de utilização de águas recicladas nos autoclismos (já que não faz sentido algum estar-se a deitar água potável pela sanita abaixo), pode-se reduzir a quantidade de litros do caudal de descarga. Às vezes, a solução é tão simples que parece absurda, mas, se introduzirmos, por exemplo, uma garrafa cheia de água no tanque do autoclismo, estamos a reduzir o caudal de descarga no volume dessa garrafa (0,5l ou 1l ou 1,l, conforme o tamanho do tanque e a descarga necessária). Se pouparmos 1/5 da descarga, de cada vez que carregamos no botão, isso representa uma poupança diária (e mensal, claro está) de 10% do consumo doméstico de água. Outra forma simples de reduzir o consumo, é a de controlar o fluxo das torneiras. Se pensarmos que uma pessoa gasta, em média, 38l de água a lavar os dentes (se deixar a água a correr durante os 3 minutos recomendados pelos especialistas para a duração da operação), vemos a quantidade de água que se poderá poupar ao fechar a torneira durante o processo. E imagine-se a redução de consumo se aplicarmos o mesmo princípio nos minutos do duche em que nos ensaboamos.
Estas considerações poderão parecer excessivas, ou até mesmo obsessivas para alguns. Mas, se tivermos em conta que, apesar de ainda estarmos em Fevereiro, regiões do país como Mértola ou Bragança já não tem recursos hídricos com capacidade de resposta para as necessidades dos seus habitantes, e se pensarmos nas dificuldades que por cá, de vez em quando, sentimos com a falta de água na cidade, e no cheiro a esgoto que prolifera aquando da baixa dos níveis, o meu raciocínio não parecerá tão descabido...!
Só não se percebe por que é que as medidas de fundo e de grande escala tardam em surgir, quando o problema se apresenta mais e mais grave, de ano para ano, e quando a tendência do globo é no sentido de se agravar a situação.
E já que os nossos responsáveis ainda não começaram a alertar seriamente para a necessidade de reduzir os consumos para minimizar os efeitos, que se adivinham catastróficos, da seca do Verão próximo, tomemos nós, todos nós – os principais lesados desse cenário – as escassas mas importantes medidas para essa suavização do inferno prometido.
Porque a boa mini fresquinha salva-nos da sede, mas a água dá-nos a vida.
E não nos deixeis sofrer insolação, mas livrai-nos dos incêndios. Ai mãe...

09 fevereiro 2005

11 _ o espião que veio do frio

No final do passado mês de Janeiro, mesmo a tempo de retomar esta série de crónicas, regressei da bela cidade de Tallin, na Estónia, para me constipar, no dia seguinte, na minha alegre casinha, ali à Praça do Giraldo.
Poucos se interessarão pelos percalços virais da minha saúde (a tal saudinha que por cá desejamos uns aos outros, em jeito de despedida), ou tão pouco pelas minhas deambulações pelo globo. Mas o propósito do meu relato não é uma referência à tão temida vaga de frio – que todos os anos nos espanta, apesar de “chegar” na época em que só se deveria esperar, precisamente, o frio – nem sequer para falar da enorme beleza gótico-renascentista da capital mais antiga da Europa, nossa recente parceira nestas coisas das uniões d’europa. Apenas o faço para ilustrar o que qualquer viajante menos convencional, que tenha andado por terras de fraco sol em períodos menos comuns ao turismo, como é o caso de Janeiro, já saberá por recolha empírica: Portugal é o país da Europa (leia-se, ainda assim, “um dos”) onde se passa mais frio!
Já todos ouvimos algum dos muitos estrangeiros nórdicos que por cá residem, dizer que no Inverno se pira para a terra dele, porque cá se passa um frio terrível. É certo que os potentes mecanismos de aquecimento centralizado de que dispõem os edifícios nesses países, e que, por cá, são uma compreensível (e desejável) raridade, são uma boa razão para tal suceder. Mas não será esta a principal razão de tal tragédia, que leva os sedentários humanos a migrarem como as aves, conforme as estações. A causa principal estará antes na qualidade deplorável da construção realizada por estas bandas.
Um edifício não deveria ser permeável às intempéries a ponto de tornar desconfortável a vida no seu interior. Isto passa, evidentemente, pelo grau de eficiência do sistema de isolamento térmico concebido. E olhem que nem sempre é culpa do projectista! Tentem lá dizer aos empreiteiros que não bastam as tais plaquinhas de 3 cm de esferovite na cobertura, ou que o projecto prevê isolamento no pavimento e correcção das pontes térmicas com forras específicas da estrutura e da laje porque só assim é que se obtém níveis satisfatórios de conforto térmico. Ouvirão logo algo do género “Isso não faz cá falta nenhuma! Eu já construo casas há mais de vinte anos e nunca usei cá disso!”. Obrigado! Por isso é que os outros continuam a ir para a terra deles no Inverno, e eu, um dia depois de vir, são que nem um pêro, de onde fazia -5º à hora de almoço, já me assoava cá no burgo.
Mas não se trata só de isolar para não perder. Também é preciso aproveitar os ganhos. Somos privilegiados, no contexto europeu, na quantidade, intensidade e duração de incidência da luz solar. O problema é que pouco ou nada se faz para aproveitar essa arma. Não falo dos sofisticados painéis foto-voltaicos, cujo desempenho, rendibilidade, viabilidade económica e manutenção são, ainda, a meu ver, de satisfação insípida. Falo da chamada utilização solar passiva. Ou seja, trocado por miúdos, a captação directa e natural da luz solar, e o armazenamento do calor que ela origina, na própria massa do edifício ou de elementos nele introduzidos, de forma a que resulte num aquecedor eficaz, natural, gratuito e renovável. Há inúmeras formas de o fazer - através das conhecidas estufas, associadas a elementos de recolha do calor nelas armazenado, através da radiação directa, etc. Não pretende, este artigo, ser um manual de arquitectura solar passiva, mas alertar para a importância deste facto, que lida com aspectos importantíssimos da construção, quer ao nível da responsabilidade ecológica, quer ao da eficiência energética, ou, inclusivamente (regozijo geral), ao da economia de um edifício.
A esmagadora maioria da energia consumida por um edifício é dispendida na sua utilização, sendo os gastos energéticos na sua construção, no fabrico dos materiais e em todos os outros pontos de consumo, bastante menos significativos. Como tal, será fácil de entender o quanto se pode economizar (financeira e ecologicamente) com uma boa concepção e execução de um edifício. Basta pensar no frenesim de aquecedores e ar-condicionado, que se vive neste país de clima classificado como temperado e que desapareceria.
Saberão já, por estas horas, que sou um forte defensor da arquitectura bio-climática e ecológica, mas não enquadro a actividade da arquitectura como estando ao serviço de regras destas correntes. Sim: a arquitectura bio-climática e ecológica é importante e até fundamental, mas não se pode esquecer que o papel de um arquitecto passa também por outros pontos - de intervenção social, artística, funcional, etc. A obsessão pelas regras de uma qualquer corrente é empobrecedora, porque retira a visão global e lúcida do objecto, e porque se esquiva à razão. Tal como um pintor que vive obcecado pelo detalhe e que, mercê de tal focalização, se esquece de se afastar da tela, de quando em vez, para tomar consciência do todo, caindo, assim, no risco de ter um resultado final cheio de pormenores belíssimos, mas completamente desproporcionado.
Porém, as preocupações inerentes à concepção bio-climática de um edifício deveriam fazer parte do leque de variáveis com que se esboça o objecto arquitectónico. Infelizmente, não sendo prática corrente no nosso país, isto acontece ainda menos vezes do que as verdadeiras vagas de frio, seja por falta de sensibilização dos projectistas e/ou dos promotores, seja por deficiência de conhecimentos técnicos (pouco ou nada analisados na maioria das escolas de arquitectura e pouco disponíveis), seja apenas para evitar todo o trabalho acrescido que dá fazer um projecto com esses cuidados – porque, obviamente, se se acrescenta uma nova variável à equação, ela fica mais difícil de resolver.
Na passada crónica falava da obrigatoriedade da utilização de sistemas solares para aquecimento de águas domésticas nos novos edifícios. É (será), de facto, a única real presença da arquitectura energeticamente inteligente nos nossos dias. Apesar de ser um passo importante, é preocupante que seja uma imposição da legislação, e não uma tomada de consciência da sociedade, o que origina estas intervenções. Porque, se em outros assuntos é difícil de “convencer” as pessoas de que têm de ser responsáveis a vários níveis, neste caso há um factor que joga a favor de todos. A arquitectura bio-climática torna um edifício, na sua utilização, mais económico do que um que tenha sido concebido e construído sem quaisquer preocupações desta índole! E essa vantagem económica é exponencial, com o passar do tempo!
Por isso, tomemos consciência de que todos nos queixamos da fraca qualidade de conforto que temos no interior dos nossos edifícios, e mentalizemo-nos de que não podemos continuar a construir da mesma forma, legitimados por um falso e recente empirismo, sob pena de perpetuarmos essa falta de qualidade.
Construa-se melhor! Como deve ser! E nem é para que os nórdicos deixem de migrar. É para ver se me passa esta constipação...
Saudinha!